Resumo:
- Eventos climáticos extremos deixaram de ser exceção e já comprometem produtividade, custos e previsibilidade das safras em diferentes regiões do Brasil, aumentando a necessidade de adaptação da agricultura.
- A biotecnologia já trouxe resultados expressivos ao agro brasileiro: levantamento da Agroconsult e da CropLife Brasil aponta ganho adicional de 112,3 milhões de toneladas de grãos e preservação de 21,4 milhões de hectares que precisariam ser incorporados à produção.
- Os benefícios vão além da produtividade. As tecnologias desenvolvidas nas últimas décadas também reduziram o uso de defensivos, o consumo de combustível e as emissões de CO₂, tornando a produção mais eficiente e sustentável.
- A edição gênica representa a nova fronteira da inovação agrícola. Ferramentas como o CRISPR permitem desenvolver cultivares mais tolerantes à seca, ao calor, às enchentes e a doenças, com maior precisão e ciclos de pesquisa mais rápidos.
- A adaptação ao novo clima dependerá da combinação de tecnologias. Melhoramento convencional, biotecnologia, edição gênica, agricultura digital e boas práticas de manejo deverão atuar de forma complementar para aumentar a resiliência das lavouras.
Por André Garcia
Os eventos climáticos extremos deixaram de ser uma exceção para se tornarem parte da rotina no campo. Estiagens prolongadas, ondas de calor, enchentes, geadas fora de época e chuvas cada vez mais irregulares já afetam diferentes regiões do país, elevando os riscos para a produção agrícola e tornando as safras menos previsíveis.
Diante desse cenário, a busca por plantas mais resistentes ganhou velocidade. Em artigo publicado no Globo Rural, o chefe-geral da Embrapa Soja, Alexandre Nepomuceno, destaca que a adaptação da agricultura brasileira passa por um conjunto de tecnologias capazes de aumentar a resiliência das lavouras frente às mudanças climáticas.
“Mais do que uma agenda de produtividade, investir em inovação agrícola tornou-se uma questão de segurança alimentar, sustentabilidade e resiliência econômica para o futuro da agricultura brasileira”, afirma.
A biotecnologia ganhou espaço nas últimas décadas justamente por ampliar a capacidade de resposta das lavouras a desafios produtivos e ambientais. Segundo levantamento da Agroconsult e da CropLife Brasil, sementes transgênicas e programas de melhoramento genético geraram 112,3 milhões de toneladas adicionais de grãos no país ao longo de mais de 25 anos de adoção, evitando a incorporação de cerca de 21,4 milhões de hectares para manter o mesmo nível de produção.
Os ganhos também aparecem nos indicadores ambientais. O estudo aponta redução de 1,597 milhão de toneladas no uso de defensivos, economia de 565 milhões de litros de combustível e mitigação de 70,4 milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO₂). A evolução da produtividade ocorreu em conjunto com avanços no manejo agrícola e na melhoria das condições químicas e físicas dos solos.
Nova geração da biotecnologia
Além dos resultados já obtidos com a transgenia e o melhoramento convencional, pesquisadores apostam na edição gênica como uma das tecnologias mais promissoras para enfrentar os efeitos das mudanças climáticas.
Ferramentas como o CRISPR permitem realizar alterações precisas em genes já existentes nas plantas, ativando, silenciando ou modificando características específicas sem a necessidade de introduzir genes de outras espécies. O objetivo é desenvolver cultivares mais tolerantes à seca, ao calor, às enchentes e a doenças emergentes.
“Diferentemente da transgenia, a edição gênica permite realizar alterações precisas em genes já existentes no próprio organismo, ampliando o potencial de desenvolvimento de variedades mais adaptadas às condições climáticas extremas e contribuindo para reduzir tempo, custos e complexidade no processo de inovação agrícola”, destaca Nepomuceno.
Segundo o pesquisador, esse avanço também pode ampliar a participação de universidades, startups e empresas no desenvolvimento de novas tecnologias para o setor. Na Embrapa, por exemplo, pesquisas avançam na obtenção de plantas de soja editadas geneticamente para aumentar a tolerância ao estresse hídrico, característica considerada estratégica diante da recorrência das estiagens no país.
Inovação exige continuidade
Embora as novas ferramentas ampliem as possibilidades de adaptação das lavouras, especialistas lembram que o desenvolvimento de uma cultivar é um processo de longo prazo. São necessários anos de pesquisa, avaliações em laboratório, testes de campo e cumprimento das exigências regulatórias antes que uma tecnologia chegue ao produtor.
“É importante compreender que soluções agrícolas não surgem de forma imediata. O desenvolvimento de novas variedades exige anos de pesquisa, investimentos contínuos, testes de campo e segurança regulatória”, ressalta o chefe-geral da Embrapa Soja.
Na avaliação de Nepomuceno, o enfrentamento das mudanças climáticas dependerá da combinação de diferentes ferramentas. Melhoramento convencional, biotecnologia, edição gênica, agricultura digital e boas práticas de manejo devem atuar de forma complementar para aumentar a resiliência da produção agrícola brasileira diante de um clima cada vez mais imprevisível.
Saiba mais
O que é edição gênica? A edição gênica é uma técnica que permite modificar genes já existentes em um organismo de forma precisa, ativando, silenciando ou alterando características específicas. Diferentemente da transgenia, ela não exige, necessariamente, a introdução de genes de outras espécies. Na agricultura, a tecnologia vem sendo utilizada para acelerar o desenvolvimento de plantas mais resistentes a estresses climáticos, pragas e doenças, reduzindo o tempo necessário para obter novas cultivares.
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