Resumo
- O agronegócio brasileiro pode gerar até 314,3 milhões de créditos de carbono entre 2025 e 2035, movimentando mais de R$ 2 bilhões apenas com metodologias consolidadas.
- A maior fatia (312,1 milhões de créditos) vem de cortar as emissões de metano na hora de lidar com dejetos de animais, prática já bem estabelecida no mercado voluntário.
- Práticas como rotação de culturas, ILPF e fertilização eficiente somam 2,2 milhões de créditos com metodologias da certificadora Verra.
- Mesmo no cenário mais conservador (25,6 milhões de créditos), a capacidade do Brasil supera as metas combinadas de compras da Suíça e de Cingapura.
- O avanço das exportações depende da liberação dos ITMOs pelo governo federal; autorizar 5% desse volume para venda externa pode render até R$ 3,5 bilhões ao País.
Créditos de carbono ligados ao agronegócio podem virar uma nova fonte de receita bilionária para o Brasil. Um estudo da consultoria Carbonn Nature — feito com apoio do Instituto Equilíbrio e do Instituto de Estudos do Agronegócio (IEAg), da Abag, e obtido pelo Valor — calcula que o setor tem capacidade de gerar até 314,3 milhões de créditos de carbono na próxima década, entre 2025 e 2035.
Olhando só para as práticas com metodologias já mais testadas dentro desse total, a exportação desses créditos já renderia mais de R$ 2 bilhões ao País.
Boa parte desse volume vem de uma única frente: cortar as emissões de metano na hora de lidar com dejetos de animais, seguindo o padrão técnico usado pela ONU para esse tipo de projeto. Essa prática isolada chegaria a 312,1 milhões de toneladas de carbono em créditos — o grosso da conta.
O restante do potencial está em mudar a forma como a terra é manejada, com base em critérios da certificadora Verra, que aponta 2,2 milhões de créditos possíveis no Brasil.
Nessa conta entram práticas que já fazem parte da rotina de muitas propriedades — rotação de culturas, plantio direto, menos queimadas, integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) — e outras ainda pouco difundidas, como fertilização nitrogenada mais eficiente, irrigação de precisão e sistemas silvopastoris, que combinam árvores e pastagem na mesma área para aumentar a captura de carbono e melhorar o solo.
As duas frentes, porém, estão em estágios bem diferentes de maturidade. Conforme explica a advogada Natascha Trennepohl, responsável pelo estudo, a redução de metano “é a prática com maior experiência no mercado voluntário de carbono” — já o manejo de solo “ainda está em fase inicial”, com um único projeto registrado até agora.
Ainda assim, para ela, isso não torna os números frágeis: as duas metodologias já são reconhecidas internacionalmente e já têm projetos rodando no País, o que dá base concreta às estimativas.
Potencial é imenso
Reduzindo a conta – só projetos já registrados, só metodologias consolidadas -, o Brasil ainda chegaria a 25,6 milhões de créditos de carbono até 2035.
Para comparar: é mais crédito do que a Suíça planeja comprar no total (10 milhões) e mais do que Cingapura declarou precisar no mercado internacional (25,1 milhões) juntos.
Na visão de Trennepohl, o entrave para transformar esse potencial em receita não está mais na técnica — está na regulação.
O ponto-chave é a liberação, pelo governo, dos ITMOs: créditos de carbono com selo internacional, que permitem a um país comprar reduções de emissão feitas em outro para cumprir sua própria meta climática.
Essa meta é conhecida como NDC — a promessa que cada país faz, dentro do Acordo de Paris, de quanto vai reduzir suas emissões. Quando o Brasil vende um ITMO, esse volume de carbono deixa de contar como redução brasileira e passa a contar como redução do país comprador. O tema está em consulta pública neste momento.
“O Brasil já fez a parte mais difícil, que é comprovar que tem escala, metodologia e integridade ambiental para competir nesse mercado”, resume Trennepohl.
O estudo simula um cenário específico: se o governo autorizar que 5% dos créditos gerados virem ITMOs exportáveis, o efeito sobre a meta climática do País seria de apenas 4% — um impacto pequeno diante do retorno.
Seriam 15,7 milhões de toneladas de carbono exportadas, com receita estimada em R$ 2,4 bilhões. E se a venda for direcionada ao setor de aviação internacional, que tem demanda forte por compensação de emissões, esse número sobe para R$ 3,5 bilhões.

