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Garimpo cresce 660% em área protegida e ameaça o agro em MT

Garimpo cresce 660% em área protegida e ameaça o agro em MTFoi constatada uma ação intensa, com alto potencial de degradação. Foto: Política Federal

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Resumo:

  • Garimpo desmatou 79,5 hectares no Parque Nacional do Juruena até abril, contra 10,5 hectares em agosto de 2025
  • No Parque Estadual Igarapés do Juruena, a área garimpada saltou de 8,6 para 43,7 hectares em nove meses
  • Imóvel rural sobreposto ao parque estadual, em Colniza, teve 13,7 hectares embargados pela Sema-MT em março deste ano
  • Ibama e ICMBio fizeram 15 operações no parque nacional desde 2010, sem conseguir conter o avanço do garimpo
  • Mato Grosso foi o único dos nove estados amazônicos com alta no desmatamento em 2025, segundo o Prodes/INPE
  • A destruição da floresta afeta o microclima e o regime de chuvas do estado, além de prejudicar a imagem e a rastreabilidade ESG do agro mato-grossense.
  • Pesquisadores do MAAP/ICV sugerem a criação de uma plataforma geoespacial integrada e a unificação do Cadastro Mineiro da ANM para cruzamento automático de dados e alertas em tempo real.

 

Por André Garcia

A área desmatada pelo garimpo ilegal de ouro cresceu 660% em apenas oito meses no Parque Nacional do Juruena, em Mato Grosso. Localizada no sul da Amazônia a região é fundamental para a manutenção do microclima e do regime de chuvas indispensáveis para a produtividade da agropecuária, principal atividade do estado.

Segundo estudo divulgado pela Amazon Conservation junto ao Instituto Centro de Vida (ICV) nesta quinta-feira, 6/8, entre agosto de 2025 e abril de 2026, a área desmatada pelo garimpo na Unidade de Conservação (UC) saltou de 10,5 hectares (ha) para 79,5 ha.

Movimento semelhante foi constatado no Parque Estadual Igarapés do Juruena, onde os números passaram de 8,6 ha para 43,7 ha – alta de 408% no período. Os parques fazem parte de uma região de alta pressão minerária, com predominância de processos em fase de requerimento no entorno imediato.

No Parque Estadual Igarapés do Juruena, a Sema-MT autuou em 2020 e novamente em 2025 um imóvel rural sobreposto à área garimpada, em Colniza. Em março de 2026, embargou 13,7 hectares por garimpo sem licença e desmatamento em Área de Reserva Legal — com registro no Cadastro Ambiental Rural (CAR).

Imagem: MAAP

Infraestrutura e degradação em alta

Em ambas as unidades de conservação, foi constatada uma ação intensa, rápida e com alto potencial de degradação, sobretudo pelo uso de maquinários, abertura de acessos levantamento, vai além de intervenções pontuais.

“Esse cenário tem agravado os impactos ambientais, incluindo desmatamento, assoreamento, aumento da carga de sedimentos e matéria orgânica nos cursos d’água e a contaminação por mercúrio, o que compromete a biodiversidade e a segurança alimentar das comunidades locais”, ressalta trecho do relatório.

O efeito não fica restrito ao entorno dos parques. A perda de floresta interfere no regime de chuvas, ameaçando a produtividade das lavouras, e coloca na conta do agro a destruição da região, prejudicando a imagem do setor em um cenário de exigências crescentes voltadas à rastreabilidade e critérios ESG.

Em 2025, Mato Grosso foi o único dos nove estados da Amazônia Legal a registrar aumento do desmatamento no último levantamento do Prodes/INPE: alta de 25%, de 1.257 km² para 1.572 km², enquanto o bioma como um todo caiu 11% e atingiu o menor índice em onze anos.

Recorrência expõe fragilidades

Segundo dados do Ibama e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), 15 operações de combate ao garimpo ilegal foram realizadas no Parque Nacional do Juruena desde 2010. No Parque Estadual Igarapés do Juruena, a Sema-MT registrou ações de fiscalização em 2020, 2025 e 2026.

Ainda assim, o garimpo seguiu avançando nas duas unidades. Para os pesquisadores, isso mostra que o arcabouço legal não garante, por si só, a proteção da Amazônia. Os desafios para isso estão relacionados à governança, à transparência e à fiscalização da atividade minerária em toda a Amazônia.

O que os pesquisadores propõem

Para os autores, o caminho passa por uma plataforma integrada de informações geoespaciais, que combine os alertas por satélite com dados atualizados de concessões minerárias e limites de áreas protegidas e terras indígenas, além do reforço da capacidade operacional dos órgãos de fiscalização.

O estudo aponta ainda a necessidade de melhorias no Cadastro Mineiro, da Agência Nacional de Mineração (ANM): unificar as informações do cadastro com o Sigmine e com o portal do Serviço Geológico do Brasil, e permitir o cruzamento automático dos polígonos de concessão com áreas protegidas e territórios indígenas.

“O próximo passo é conectar esses alertas a informações atualizadas sobre concessões minerárias e aos limites de áreas protegidas, fortalecendo a capacidade de resposta das autoridades e tornando as ações de fiscalização ainda mais eficientes”, afirma Matt Finer, diretor da MAAP e pesquisador sênior da Amazon Conservation.

Saiba mais

O que é o MAAP — O Monitoring of the Andes Amazon Project é uma iniciativa da organização Amazon Conservation que usa imagens de satélite de alta resolução para detectar e divulgar, em tempo quase real, o desmatamento na Amazônia andina e brasileira. Neste levantamento, feito em parceria com o Instituto Centro de Vida (ICV), as áreas garimpadas foram delimitadas por interpretação visual de imagens SkySat, com resolução de 50 centímetros — detalhe suficiente para identificar acampamentos, maquinário e estradas de acesso.

 

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