Resumo:
- Experimentos de campo reunidos em revisão de pesquisas com participação da Embrapa Meio Ambiente registraram ganhos médios de cerca de 24% de produtividade com biochar associado a fertilizantes minerais.
- O material é obtido pela pirólise de resíduos como palhas, cascas, bagaços, resíduos florestais e dejetos animais, e o carbono incorporado ao solo pode permanecer estável por décadas ou séculos.
- Os efeitos sobre porosidade, retenção de água e capacidade de troca de cátions são mais relevantes em solos arenosos, segundo os autores.
- Estudos analisados registraram redução de 20% a 51% nas emissões de metano em arroz irrigado e de 38% a 54% nas de óxido nitroso.
- Os melhores resultados vieram do uso do biochar como complemento à adubação, não como substituto dos fertilizantes.
- Ainda não há dose recomendada por tipo de solo e cultura, e o material divulgado não traz estimativas de custo de produção ou de aplicação.
Por André Garcia
Resíduos como casca de arroz, palhas, bagaços, materiais florestais e dejetos animais podem ser transformados em biochar e contribuir para ganhos médios de cerca de 24% na produtividade agrícola. Experimentos de campo reunidos em revisão de pesquisas com participação da Embrapa Meio Ambiente mostram que o material pode melhorar as condições do solo, armazenar carbono e reduzir emissões de gases de efeito estufa.
O biochar é obtido pela pirólise de biomassa, processo realizado em ambiente com pouco ou nenhum oxigênio. Durante a produção, parte do carbono presente na biomassa é convertida em estruturas estáveis. Incorporado ao solo, esse carbono pode permanecer armazenado por décadas ou até séculos.
“O biochar reúne características que o tornam uma tecnologia estratégica para a agricultura brasileira. Ele permite transformar resíduos da agropecuária em insumo capaz de melhorar a saúde do solo, aumentar a eficiência do uso de nutrientes e sequestrar carbono”, explica Cristiano Andrade, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente.

Estrutura porosa de partícula de biochar. Foto: Embrapa
Solo arenoso responde mais
De acordo com a revisão, também há benefícios para as características físicas, químicas e biológicas do solo, como aumento da porosidade e da retenção de água, melhoria do pH e da capacidade de troca de cátions (CTC).
Os efeitos podem ser especialmente relevantes em solos arenosos, onde a retenção de água e o acúmulo de carbono são mais difíceis. A estrutura porosa do material também cria microambientes favoráveis a bactérias e fungos responsáveis pela ciclagem de nutrientes, segundo os autores.
Terra Preta de Índio deu a pista
A referência para a tecnologia está na Amazônia. As chamadas Terras Pretas de Índio são solos formados pelo acúmulo de carvão vegetal e resíduos orgânicos incorporados ao longo de séculos por povos indígenas da região.
Essas áreas apresentam estoques de carbono e fertilidade superiores aos de solos vizinhos de mesma origem geológica, e serviram de base para o desenvolvimento das atuais tecnologias de produção e aplicação de biochar.
Biochar rende 24% com adubo mineral
Em experimentos de campo realizados no Brasil, os ganhos médios de produtividade chegaram a aproximadamente 24% com o uso de biochar associado a fertilizantes minerais. Na comparação com áreas sem qualquer fertilização — condição que não corresponde à lavoura comercial —, o incremento ficou próximo de 40%.
Os pesquisadores ressaltam que os resultados variam conforme o tipo de solo, a matéria-prima utilizada para produzir o biochar, a temperatura da pirólise e a dose aplicada. Em geral, os melhores resultados foram registrados quando o produto foi utilizado como complemento à adubação, e não como substituto dos fertilizantes.
Menos metano
Estudos analisados pelos pesquisadores registraram redução de 20% a 51% nas emissões de metano (CH₄) em áreas de arroz irrigado. Segundo os autores, o resultado está relacionado ao aumento da aeração do solo, que reduz a atividade dos microrganismos responsáveis pela produção do gás.
Para o óxido nitroso (N₂O), relacionado principalmente ao uso de fertilizantes nitrogenados na agricultura, as reduções médias observadas ficaram entre 38% e 54%.
O biochar também pode ser incorporado a fertilizantes organominerais. Segundo os estudos reunidos na revisão, essa aplicação pode aumentar a eficiência do aproveitamento do nitrogênio pelas plantas e reduzir perdas de nutrientes.
“O principal desafio agora é ampliar sua adoção em escala comercial, com o desenvolvimento de processos de produção mais eficientes, padronização da qualidade do material e geração de recomendações agronômicas para diferentes solos, culturas e condições de manejo”, diz Andrade.
SAIBA MAIS
O que é pirólise? É o processo térmico que transforma biomassa em biochar. O material orgânico — palha, casca, bagaço, resíduo florestal ou dejeto animal — é aquecido em ambiente com pouco ou nenhum oxigênio, o que impede a queima completa. Sem oxigênio suficiente para virar cinza e gás carbônico, parte do carbono da biomassa se reorganiza em estruturas estáveis, que resistem à decomposição no solo por décadas ou séculos. A temperatura da pirólise é uma das variáveis que determinam as características do biochar obtido e, por consequência, sua resposta agronômica. Além do biochar, o processo gera bio-óleo e gases que podem ser aproveitados para produção de energia.
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