Resumo:
- Mais da metade de Mato Grosso está em condição de perigo por calor para o rebanho, segundo o módulo de Conforto Térmico Bovino (CTB) do Sisdagro, plataforma do Inmet.
- Em Aripuanã, o índice está em 81,4, acima do limite de 79, e não desce abaixo de 79,5 em nenhum dia até a próxima terça-feira, 8/9.
- Sinop faz o caminho inverso ao do restante do estado: sai de 79,9 e sobe até 81,5 na terça, quando o centro-sul já terá aliviado.
- Cuiabá cai de 81,3 no sábado para 73,1 na segunda-feira, abrindo dois dias de folga para vacinação, apartação e transporte.
- Acima do limite de perigo, o boi come menos, ganha peso mais devagar e reduz a taxa de prenhez, com reflexo no peso de abate meses depois.
- Segundo a Embrapa, vacas com acesso à sombra de árvores em sistemas integrados produzem até quatro vezes mais embriões no período mais quente do ano.
Por André Garcia
Mais da metade de Mato Grosso está em condição de perigo por calor para o rebanho. É o que mostra o módulo de Conforto Térmico Bovino (CTB) do Sistema de Suporte à Decisão na Agropecuária (Sisdagro).
De acordo com a plataforma, desenvolvida pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), em municípios como Aripuanã o índice de conforto térmico bovino está em 81,4, acima do limite de 79. Os dados acendem um alerta, já que, nestas condições, o boi começa a comer menos, ganhar peso mais devagar e reduzir a taxa de prenhez.
Foi o que explicou o médico-veterinário e consultor técnico Vitor Hugo Padilha, em entrevista recente ao Gigante 163.
“Como consequência, ocorre redução do consumo de alimento, menor ganho de peso diário, pior conversão alimentar e queda da eficiência produtiva. No bolso do produtor, isso significa animais demorando mais para atingir o peso de abate, aumento do custo de produção e menor rentabilidade por hectare.”

Mapa – Sindagro
Monitoramento
O índice usado pelo Inmet é o de Temperatura e Umidade (ITU), que combina calor e umidade do ar. Abaixo de 72 a condição é normal. De 72 a 76, atenção. De 76 a 79, alerta. Acima de 79, perigo. Os números refletem um cenário de seca potencializado pelo El Niño, que ainda tem 63% de chance se intensificar nos próximos meses.
Nesse cenário, o monitoramento do conforto térmico se torna estratégico, já que antecipa o dia em que o animal pode estar mais sensível e permite remanejar o trabalho antes da perda acontecer. No caso do Sisdagro, a consulta é gratuita, feita por município, e traz o valor do dia mais a previsão para os cinco dias seguintes.
Durante o lançamento da plataforma em Mato Grosso, na última semana, o diretor de relações institucionais da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato), Ronaldo Vinha, destacou o ganho de informação para o produtor.
“Para Mato Grosso, ampliar o acesso a informações climáticas permite que o produtor tenha mais dados para avaliar as condições de sua propriedade e planejar as operações. O Sisdagro pode complementar outras informações já utilizadas pelo setor e contribuir para decisões relacionadas ao plantio, ao manejo e à colheita”, afirmou.
Norte trava, centro-sul respira
O estado não vive a mesma semana em todas as regiões. Enquanto o norte permanece acima do limite de perigo do início ao fim da previsão, o centro-sul tem dois dias de folga — e no extremo sul o rebanho não chega sequer ao alerta.
Aripuanã é o caso mais fechado: marca 81,4 nesta quinta-feira e não desce abaixo de 79,5 em nenhum dia até terça. Sinop faz o caminho inverso ao do restante do estado — sai de 79,9 e sobe até 81,5 na terça, o pico da semana, quando o centro-sul já terá aliviado.
No centro-sul há folga. Cuiabá cai de 81,3 no sábado para 73,1 na segunda-feira, e Rondonópolis recua de 81,9 para 77,8 no mesmo intervalo. Alto Taquari, no extremo sul, é a exceção completa: não passa de 75,2 na semana e não chega à faixa de alerta em nenhum dos seis dias.

Aripuanã está em região com dados mais críticos.
Redução de danos
As duas medidas de maior efeito são também as mais simples. A primeira é água limpa e fresca em quantidade suficiente ao longo de todo o dia. A segunda é sombra, natural ou artificial. Vacinação, apartação e transporte devem ser concentrados no início da manhã ou no fim da tarde.
“A água é indispensável para manter as funções fisiológicas e deve estar disponível continuamente, em quantidade e qualidade. Da mesma forma deve ocorrer com a sombra, seja por meio de árvores, sistemas silvipastoris ou estruturas artificiais”, afirmou o veterinário Ronaldo Oliveira, ao Gigante 163.
O retorno aparece na reprodução. Segundo a Embrapa, vacas com acesso à sombra de árvores em sistemas integrados produzem até quatro vezes mais embriões no período mais quente do ano e 22% mais leite ao longo de 33 meses de avaliação, na comparação com as mantidas a pleno sol.
SAIBA MAIS
O que é o ITU – O Índice de Temperatura e Umidade combina a temperatura do ar com a umidade relativa para estimar a dificuldade que o animal tem de dissipar o calor do corpo. Umidade alta reduz a eficiência da evaporação, e por isso um dia quente e úmido pesa mais sobre o bovino do que um dia quente e seco na mesma temperatura. Valores acima de 72 já indicam algum desconforto e, a partir de 79, a escala do Inmet classifica a condição como perigo, faixa em que se esperam queda no consumo de alimento, menor ganho de peso e prejuízo à reprodução. Os limiares foram estabelecidos com base em estudos com raças taurinas, e animais zebuínos, predominantes no rebanho brasileiro, toleram valores mais altos antes de apresentar os mesmos efeitos.
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