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Amazônia se aproxima de ponto de não retorno

Amazônia se aproxima de ponto de não retornoFloresta pode virar savana seca. Foto: Amazônia Real

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Resumo

  • O relatório Planetary Health Check 2026 (que poderia ser traduzido como check up planetário 2026), aponta que um pequeno avanço adicional no desmatamento pode empurrar a Amazônia para além de um ponto de não retorno, causando a perda de até 70% da vegetação e transformando-a em uma savana seca.
  • A degradação da floresta liberaria centenas de bilhões de toneladas de CO₂ e afetaria a estabilidade climática mundial, a segurança hídrica e alimentar, além de aumentar o risco de epidemias.
  • O documento avalia a saúde da Terra por meio de nove limites planetários, sendo que sete deles já foram ultrapassados.
  • Para evitar o colapso, o estudo defende desmatamento, degradação e incêndios zero, restauração com espécies nativas, valorização do conhecimento indígena e o fortalecimento de uma bioeconomia.
  • O relatório destaca a seca prolongada no Brasil entre janeiro e junho de 2025, com custos estimados em US$ 4,8 bilhões, associada às mudanças climáticas.
  • O documento também alerta que o enfraquecimento de outros elementos do sistema terrestre, como a circulação oceânica (AMOC), pode alterar o regime de chuvas e acelerar o declínio de partes da floresta amazônica.

Um novo estudo científico eleva o alerta sobre o futuro da Amazônia: mesmo um pequeno avanço adicional do desmatamento seria suficiente para empurrar a floresta além de um ponto de não retorno, provocando a perda de dois terços da vegetação remanescente e a liberação de centenas de bilhões de toneladas de carbono na atmosfera. O achado está no Planetary Health Check 2026 (que poderia ser traduzido como check up planetário), relatório anual do Potsdam Institute for Climate Impact Research que avalia a saúde do planeta a partir de nove “limites planetários” — sete deles já ultrapassados.

O documento dedica boa parte de sua análise aos riscos que pairam sobre a Amazônia — apontada como um dos elementos mais críticos do sistema climático da Terra.

Segundo o relatório, se a Amazônia atravessar seu ponto de inflexão, até 70% da floresta poderia deixar de ser floresta tropical úmida e se transformar em savana tropical seca, liberando centenas de bilhões de toneladas de dióxido de carbono e causando a perda irreversível de inúmeras espécies.

O documento destaca que as consequências não ficariam restritas à região: os impactos se estenderiam muito além da própria Amazônia, com sérias implicações para a estabilidade climática, a segurança alimentar e hídrica, e a saúde humana ao redor do mundo, incluindo maior risco de epidemias.

Para os autores, além de uma catástrofe ecológica, perder a Amazônia representaria também um dano moral — o sinal de que a humanidade deixou desaparecer, sob seus cuidados, um dos grandes mundos vivos do planeta.

Como caminho para evitar esse cenário, o relatório defende soluções baseadas na natureza: desmatamento, degradação e incêndios florestais zero; restauração florestal em larga escala com espécies nativas; valorização do conhecimento dos povos indígenas e comunidades locais; e implementação de uma socio-bioeconomia de florestas em pé e rios voadores.

O texto de abertura do relatório, assinado pelo brasileiro Carlos Nobre — cientista do sistema terrestre e copresidente do Painel Científico para a Amazônia —, também ressalta o papel histórico dos povos indígenas: por meio de sistemas agroflorestais sofisticados, essas comunidades cultivaram fontes confiáveis de alimento e remédio, enriqueceram solos, aumentaram a biodiversidade e criaram paisagens resilientes, preservando ao mesmo tempo a integridade dos ecossistemas florestais.

Um novo estudo eleva o alarme

Um dos pontos mais fortes do relatório é a menção a um estudo recente que reforça a urgência do problema: mesmo uma pequena quantidade adicional de desmatamento na Amazônia provavelmente empurraria a região para além de um ponto de inflexão, considerando as projeções climáticas atuais — resultando na perda de dois terços da floresta remanescente.

Esse achado é citado no capítulo sobre o enfraquecimento da capacidade da biosfera terrestre de funcionar como sumidouro de carbono, um dos destaques  da edição 2026.

No capítulo sobre Mudança do Sistema Terrestre (Land System Change), o relatório reforça que a perda contínua de floresta pode intensificar o estresse hídrico e o risco de incêndios e enchentes, e aumenta a possibilidade de mudanças ecossistêmicas em grande escala, incluindo na Amazônia.

Seca no Brasil

Na lista dos eventos climáticos extremos mais impactantes entre abril de 2025 e abril de 2026, elaborada a partir da base EM-DAT, o relatório inclui uma seca no Brasil (janeiro a junho de 2025), com custo estimado em US$ 4,8 bilhões e classificada como um evento tornado mais provável pela mudança climática, segundo avaliação por “campo causal” (evidência de eventos comparáveis).

Amazônia como “elemento de basculamento” do clima global

No capítulo sobre pontos de não retorno (tipping points), a Amazônia aparece na lista de grandes componentes do sistema terrestre com comportamento de basculamento, ao lado da Circulação de Revolvimento Meridional do Atlântico (AMOC), das calotas polares, do permafrost, das florestas boreais e dos recifes de coral de água quente.

Para entender do que se trata comportamento de basculamento, o relatório usa a metáfora de um camelo sobrecarregado: você vai colocando peso, peso, peso, e nada acontece — até que um último graveto, sozinho, faz as costas do animal cederem de vez. O sistema não volta ao que era antes.

No caso da Amazônia, esse “basculamento” seria a floresta parar de se comportar como floresta tropical úmida e se reorganizar como savana seca — não aos poucos, mas como uma mudança de estado que se autoalimenta e não se desfaz facilmente, mesmo que a pressão original diminua depois.

O relatório detalha ainda como um enfraquecimento da AMOC  afetaria diretamente a floresta amazônica: ao provocar um deslocamento para o sul da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT), esse enfraquecimento tenderia a aumentar a precipitação no sul e leste da Amazônia, mas a reduzi-la no norte.

Essa reorganização espacial das chuvas poderia, por sua vez, enfraquecer o processo de reciclagem de umidade que hoje é responsável por até 50% da precipitação local, especialmente na Amazônia ocidental.

O eventual declínio de partes da floresta reduziria sua capacidade de armazenamento de carbono, transformando-a de sumidouro em fonte de dióxido de carbono — o que reforçaria o aquecimento global.

Fonte: Pará Terra Boa