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Soja cresce 40%, enquanto feijão e arroz perdem espaço em MT

Soja cresce 40%, enquanto feijão e arroz perdem espaço em MTTendência foi identificada por pesquisadores em toda a Amazônia Legal. Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

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Resumo:

  • A área plantada com feijão na Região Metropolitana do Vale do Rio Cuiabá e entorno caiu 66% entre 2017 e 2024, e a de arroz, 33%, enquanto a de soja cresceu 40%, segundo levantamento do Instituto Escolhas.
  • A soja ocupava 61% da área plantada da região em 2024 e está presente em 11 dos 14 municípios, enquanto feijão e arroz somavam 1%, de acordo com o estudo.
  • A região tem 16 mil famílias inscritas no Cadastro Único (CadÚnico) em risco de insegurança alimentar grave, e o número de inscritos cresceu 45% entre 2017 e 2024, ante alta de 13% da população, segundo o Escolhas.
  • O gasto médio mensal com a cesta básica em Cuiabá chegou a R$ 810,41 em 2025, alta real de 19% sobre 2016, segundo o Escolhas com base em dados do Dieese.
  • Em 2024, 13 dos 14 municípios e o governo de Mato Grosso não registraram despesas na rubrica de abastecimento analisada pelo estudo, e só cinco municípios aderiram ao Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Sisan).
  • O Escolhas propõe regulamentar o cinturão verde previsto no Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado (PDDI) da região, com foco em diversidade produtiva.

Por André Garcia

A expansão das commodities agrícolas na Amazônia Legal contrasta com a redução do espaço destinado ao cultivo de alimentos que fazem parte da dieta da população. Na Região Metropolitana do Vale do Rio Cuiabá e seu entorno, por exemplo, a área plantada com soja cresceu 40% entre 2017 e 2024, enquanto o cultivo de feijão encolheu 66% e o de arroz, 33%.

Os dados são de um levantamento do Instituto Escolhas, divulgado em outubro de 2026, que detalha a produção e as políticas de abastecimento em 14 municípios da Grande Cuiabá. No período, a área cultivada aumentou 38%, passando de 630 mil para 867 mil hectares, impulsionada pela soja e pelo milho.

A soja já ocupa 61% da área plantada na região, enquanto o milho registrou expansão de 58%. Em contrapartida, arroz e feijão representam apenas 1% das lavouras, a mandioca, 0,2%, e frutas como banana, abacaxi, melancia e mamão, somente 0,1%.

O cenário acompanha uma tendência identificada pelo Instituto Escolhas em estudo anterior, sobre as regiões metropolitanas da Amazônia Legal. Entre 2017 e 2024, a área de soja cresceu 71%, enquanto a de mandioca recuou 28%. A expansão ocorreu em meio à redução de 26% no número de estabelecimentos agropecuários entre 2017 e 2022. Na Grande Cuiabá, a queda foi de 17%.

Produção cresce, mas abastecimento é desafio

A concentração das lavouras ocorre em uma região onde, entre 2017 e 2024, a população dos 14 municípios cresceu 13%, enquanto o número de inscritos no Cadastro Único (CadÚnico) aumentou 45%.

“Esse crescimento acelerado merece atenção, especialmente porque a RM e seu entorno têm 16 mil famílias inscritas no CadÚnico em situação de risco de insegurança alimentar grave”, alerta o Instituto Escolhas.

O levantamento também aponta fragilidades nas políticas de abastecimento. Apenas cinco dos 14 municípios aderiram ao Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Sisan) e, em 2024, 13 não registraram despesas na rubrica de abastecimento analisada. O mesmo ocorreu com o Governo de Mato Grosso, embora investimentos na área possam ter sido contabilizados em outras classificações orçamentárias.

Além disso, 67% dos equipamentos públicos de segurança alimentar estão concentrados em Cuiabá. A região conta com 76 feiras livres, seis restaurantes populares, três bancos de alimentos e dois mercados públicos, mas o estudo não identificou sacolões públicos, cozinhas comunitárias ou centrais de recebimento da agricultura familiar.

“Municípios coordenados podem aprimorar o fluxo entre produção e consumo de alimentos, compartilhar a infraestrutura de abastecimento e otimizar ações governamentais em prol dos sistemas alimentares”, destaca o estudo sobre a Amazônia Legal.

Diversificação como alternativa

Para fortalecer a produção regional de alimentos, o Instituto Escolhas defende a regulamentação de um cinturão verde na Grande Cuiabá, previsto no Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado (PDDI), com foco na diversidade produtiva.

Entre as recomendações estão ainda o incentivo às compras públicas da agricultura familiar, a ampliação da infraestrutura de abastecimento, a adesão dos municípios ao Sisan e a divulgação dos dados de comercialização da Ceasa de Cuiabá e dos demais entrepostos do estado.

“O desenvolvimento do potencial dessas RMs encravadas na floresta em prol da alimentação regional corre o risco de não sair do papel sem políticas públicas bem estruturadas e compromissos concretos entre os municípios, os estados partícipes e o Governo Federal”, alerta o Instituto Escolhas no estudo sobre a Amazônia Legal.

Saiba mais

O que é o Sisan? O Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Sisan) foi criado pela Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional (Losan), a Lei 11.346/2006, para integrar União, estados, Distrito Federal e municípios na formulação e execução de políticas de acesso à alimentação adequada. A adesão é voluntária. Para aderir, o município precisa ter um conselho de segurança alimentar e nutricional com dois terços de representantes da sociedade civil e uma câmara intersetorial de governo. Também precisa se comprometer a publicar um plano municipal de segurança alimentar em até 12 meses após a adesão.

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