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Agroflorestas ganham escala e viram negócio bilionário

Agroflorestas ganham escala e viram negócio bilionárioInvestimentos ultrapassam R$ 3 bilhões em compromissos anunciados. Foto: Embrapa

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Resumo

  • Os SAFs deixaram de ser apenas projetos de pequenas propriedades e ONGs para atrair gestoras bilionárias, multinacionais e fundos de pensão, ultrapassando R$ 3 bilhões em compromissos anunciados.
  • O motor da virada é meta brasileira de recuperar 70 milhões de hectares de pastagem degradada até 2050, somada a um modelo financeiro que une renda agrícola a curto prazo com créditos de carbono a longo prazo.
  • A Belterra (com operações no Pará, Mato Grosso e Bahia) obteve R$ 100 milhões do BNDES (via Fundo Clima) para implantar 2,5 mil hectares.
  • A Courageous Land recebeu R$ 116 milhões do BNDES para plantar 2 mil hectares na Amazônia com café, açaí, cacau e espécies madeireiras.
  • A Natura investiu R$ 60 milhões desde 2021 em dendê agroflorestal no Pará, alcançando mil hectares plantados e registrando um rendimento 50% maior em comparação ao modelo tradicional.
  • O Patria lidera com um fundo de US$ 500 milhões (mais de R$ 2,5 bilhões) até 2027, focando em culturas perenes como abacate hass, café e cacau.
  • O Fundo Vale aplicou R$ 292 milhões entre 2020 e 2025 para apoiar negócios agroflorestais.
  • Especialistas apontam que o principal gargalho deixou de ser a escassez de dinheiro e passou a ser a busca por habilidades e competências para escalar os negócios de forma segura e lucrativa (“fazer a terra valer mais recuperada do que desmatada”).

 

Há poucos anos, sistema agroflorestal era sinônimo de pequena propriedade e projeto de ONG. Hoje, é onde gestoras bilionárias, multinacionais de cosméticos e fundos de pensão estão colocando dinheiro. A conta, somada, já passa de R$ 3 bilhões em compromissos anunciados.

E o motor por trás da virada, segundo especialistas ouvidos pelo Globo Rural, é a meta brasileira de recuperar 70 milhões de hectares de pastagem degradada até 2050, combinada com um mercado de carbono que sozinho nunca daria conta de bancar essa restauração.

“São modelos produtivos, mas também financeiros nos quais o cultivo de determinado produto agrícola entra já nos primeiros meses, começa a dar uma certa renda, enquanto o carbono só vai entrar a partir do terceiro ano”, explica o diretor de Florestas e Restauração Florestal do Imaflora, Leonardo Sobral, para quem essa combinação de renda de curto prazo com ganho ambiental de longo prazo é o que destravou o interesse do capital privado.

Uma das pioneiras é a Belterra, que opera no Pará e no Mato Grosso — além da Bahia — e foi a primeira empresa do setor a conseguir crédito do BNDES via Fundo Clima: R$ 100 milhões para implantar 2,5 mil hectares de agrofloresta nesses três estados.

“O que a gente chama de SAF sempre foi em pequena escala, impulsionado por ONG, voltado a pequenos agricultores. Nos últimos anos, isso ganha escala de negócio para valer, atraindo investimento, com empresas de milhares de hectares. Claramente houve uma mudança”, resume o diretor-presidente da empresa, Valmir Ortega, que descreve o momento atual como “um processo de sistematização em larga escala. E isso está sendo muito rápido”.

O maior cheque: US$ 500 milhões do Patria

A aposta mais robusta é do Patria, uma das maiores gestoras do País: um fundo de US$ 500 milhões (mais de R$ 2,5 bilhões) dedicado a sistemas agroflorestais até 2027, dos quais US$ 150 milhões já foram captados. O primeiro projeto fica em Avaré (SP) e aposta no abacate hass como cultura-âncora. “Identificamos o avocado hass como uma cultura perene de alto valor, com um apelo crescente de consumo, ligado a hábitos de alimentação saudáveis e que combina muito bem no arranjo agroflorestal”, diz o sócio-diretor do Patria, Pedro Faria.

Café e cacau em áreas de pasto degradado completam o desenho.

“O fio condutor são culturas perenes, de alto valor agregado, que sejam commodities que o Brasil já tem uma vocação para produzir e com demanda internacional crescente”, afirma Faria, que projeta retorno de 12% a 14% ao ano em até 15 anos para os investidores qualificados do fundo.

Parte do capital já aplicado veio do Fundo Vale — R$ 292 milhões investidos em negócios agroflorestais entre 2020 e 2025, dentro da meta da instituição de restaurar 500 mil hectares até 2030.

Para a gerente de estratégia, gestão e impacto do fundo, Juliana Vilhena, o salto dos últimos cinco anos é de viabilidade.

“O que a gente percebe de 2020 para agora é que está cada vez mais possível implantar e escalar mais áreas, que há viabilidade financeira e que é um mercado muito promissor.” Na síntese dela, a lógica virou “fazer uma transformação onde a terra vale mais recuperada do que desmatada”.

Amazônia com a Courageous Land

A Courageous Land seguiu caminho parecido ao da Belterra: R$ 116 milhões do BNDES para plantar dois mil hectares na Amazônia, com café consorciado a açaí, cacau e espécies madeireiras — soma-se aos 450 hectares que a empresa já tem em operação em São Paulo, Roraima e Bahia. Para o cofundador Gilberto Terra, o gargalo do setor não é mais financeiro.

“Não diria que há escassez de dinheiro para financiar projetos dessa natureza, há escassez de habilidades e competências. Dinheiro foi um problema quando as agroflorestas não tinham uma reputação de sistemas seguros e eram vistas como coisa de pequena escala, de quintal. Hoje não falta dinheiro no mercado para financiar projetos com essa proposta.”

Natura: sete anos até virar caso de negócio

Já a Natura mostra o outro lado do amadurecimento do setor: o tempo que leva até um projeto agroflorestal ganhar escala. A empresa começou em 2018 com 18 hectares de dendê agroflorestal no Pará; neste ano, chegou a mil hectares plantados. Já foram R$ 60 milhões investidos desde 2021, com mais R$ 20 milhões previstos para os próximos três anos e meio — a meta é dois mil hectares até 2030 e 100% do óleo de palma da empresa vindo de sistemas agroflorestais até 2040.

O modelo remunera parceiros que plantam em suas próprias áreas, em troca do compromisso de vender a produção preferencialmente à Natura — um arranjo que, segundo a diretora de Sustentabilidade Angela Pinhati, nasceu de um desconforto com o histórico da própria matéria-prima.

“Tínhamos um incômodo muito grande conhecendo a palma e seu histórico de ter devastado as principais florestas do mundo. Daí surgiu uma inquietude de tentar trazer um modelo mais interessante.”

Ela cita ainda um rendimento 50% maior do dendê cultivado em sistema agroflorestal como prova da viabilidade econômica do modelo, além do ganho ambiental — e lembra da resistência inicial do mercado.

“Lembro que na época em que iniciamos o projeto havia fornecedor que nos chamava de loucos, mas acho que é preciso ter essa coragem de romper com o padrão e de pesquisar algo alternativo.”

Com informações do Globo Rural

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