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Preservação de macaco ameaçado vira fonte de renda em MT

Preservação de macaco ameaçado vira fonte de renda em MTProposta conta com recuperação natural assistida. Foto: Instituto Ecótono

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Resumo:

  • Pequenos produtores do norte de Mato Grosso podem gerar renda com corredores de floresta que combinam árvores nativas e plantas para colheita e venda, além do turismo de observação de primatas, segundo Rodrigo Gerhardt, gerente de vida silvestre da Proteção Animal Mundial, em entrevista ao Gigante 163.
  • Mudas desenvolvidas pela Embrapa em Sinop devem ser plantadas até o fim do ano para ampliar as conexões entre fragmentos de mata usados pelo zogue-zogue-do-mato-grosso, primata criticamente ameaçado de extinção.
  • Na Gleba Mercedes, em Sinop, um corredor de 1 hectare (ha) conecta fragmentos de vegetação de 4 ha e 9 ha; a ampliação para outras áreas deve usar a restauração natural assistida, segundo Gerhardt.
  • O trabalho é desenvolvido pelo Instituto Ecótono, com apoio da Proteção Animal Mundial, na Gleba Mercedes e na comunidade 12 de Outubro, entre Sinop e Cláudia.
  • Na Fazenda Anacã, em Alta Floresta, o turismo de observação já foi mais produtivo que a pecuária em anos de arroba baixa, segundo o administrador Fernão Prado.

 

Por André Garcia

Pequenos produtores do norte de Mato Grosso podem gerar renda e, ao mesmo tempo, proteger o zogue-zogue-do-mato-grosso, um dos primatas mais ameaçados do mundo. A estratégia é formar corredores de floresta entre fragmentos de mata, com árvores nativas e plantas que podem ser colhidas e vendidas, e abrir as propriedades ao turismo de observação.

O trabalho é desenvolvido pelo Instituto Ecótono, com apoio da Proteção Animal Mundial, na Gleba Mercedes, em Sinop, e na comunidade 12 de Outubro, entre Sinop e Cláudia. Até o fim do ano, mudas desenvolvidas pela Embrapa devem ampliar essas conexões, segundo Rodrigo Gerhardt, gerente de vida silvestre da Proteção Animal Mundial.

“Esses corredores podem ser feitos com base agroflorestal, permitindo o plantio de espécies produtivas que também possam gerar renda”, afirmou Gerhardt em entrevista ao Gigante 163.

Corredor conecta fragmentos de floresta

Na Gleba Mercedes, a estratégia já começou a ser colocada em prática com a implantação de um corredor florestal de 1 hectare (ha), que conecta dois fragmentos de vegetação de 4 ha e 9 ha. A iniciativa teve apoio da Embrapa Agrossilvipastoril e do Arborescer, projeto de extensão da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

A ampliação para outras áreas deve usar a restauração natural assistida, técnica que aproveita a capacidade de regeneração da vegetação, com intervenções como o controle de plantas invasoras e o plantio de mudas quando necessário.

O trabalho enfrenta um dos principais riscos à sobrevivência do zogue-zogue-do-mato-grosso (Plecturocebus grovesi), também conhecido como zogue-zogue-de-Alta-Floresta. A espécie é classificada como criticamente ameaçada de extinção, e a principal ameaça é a perda de habitat.

“A paisagem hoje em Sinop encontra-se profundamente fragmentada, o que faz com que famílias de zogue-zogue vivam em pequenas matas de forma isolada, sem contato com indivíduos de outros grupos, o que, a médio prazo, pode ser fator de extinção da espécie pelo risco de endogamia”, explicou Rodrigo.

Conservação também gera renda

Além dos sistemas agroflorestais, outra possibilidade de geração de renda é o turismo de observação de fauna.  Na prática, o produtor pode atuar como prestador direto de serviços, com hospedagem, alimentação e trilhas guiadas.

“A observação de primatas se torna uma fonte de renda para famílias, seja porque o turista paga a entrada, contrata o condutor local especializado na observação de fauna, como também consome alimentos e bebidas e até mesmo o artesanato e lembranças regionais.”

Para desenvolver esse potencial, o Sebrae Mato Grosso, por meio do Programa Agentes de Roteiros Turísticos, apoia a estruturação dos empreendimentos. Já o Instituto Ecótono e a UFMT orientam sobre boas práticas de observação de fauna e capacitam guias locais.

Turismo supera pecuária em fazenda do nortão

Como já mostramos, na Fazenda Anacã, em Alta Floresta, a combinação entre pecuária e turismo já apresenta resultados. Enquanto o gado ocupa as áreas abertas, a vegetação nativa é utilizada para passeios de observação de animais. A receita da atividade ajudou a financiar a criação de uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), em 2024.

“Você cria um ecossistema que entrega muito mais para a comunidade local, tanto economicamente como socialmente e ambientalmente”, relatou Fernão Prado, administrador da fazenda. “Já teve anos, muito por conta da baixa da arroba, em que o turismo foi mais produtivo”, acrescentou.

Rota leva primatas de MT ao mercado internacional

Com 29 espécies de primatas, Mato Grosso estaria entre os dez países com maior diversidade desses animais no mundo. Parte dessa riqueza pode ser conhecida na Rota dos Primatas, que reúne sete locais em Sinop, Cláudia, Alta Floresta e São José do Rio Claro, onde é possível observar 15 espécies, sendo dez ameaçadas de extinção.

“Perceber tantas espécies de primatas em um espaço tão curto de tempo e território faz com que o visitante sinta na pele a quão valiosa e insubstituível é aquela região”, pontuou Gerhardt.

Divulgada em feiras nacionais e internacionais, a rota conta com apoio da Embratur e da Associação Nacional de Turismo de Observação de Vida Silvestre (TOVS) para alcançar o mercado externo e, segundo Gerhardt, pode conquistar o selo internacional Wildlife Heritage Areas, voltado ao turismo responsável de fauna.

 

Saiba mais

O que é o zogue-zogue-do-mato-grosso? É um primata de pequeno porte, com menos de 1 kg, barba alaranjada e cauda longa, que vive apenas no norte de Mato Grosso, na região entre os rios Juruena, Arinos e Teles Pires. A espécie (Plecturocebus grovesi) foi descrita pela ciência em 2019, e o nome homenageia o primatólogo britânico Colin Groves. Vive em pequenos grupos familiares, formados por um casal que fica junto a vida toda e seus filhotes. Alimenta-se principalmente de frutos e, ao se deslocar pela mata, espalha sementes que ajudam a floresta a se regenerar. Em 2022, entrou na lista dos 25 primatas mais ameaçados do mundo, elaborada pela organização Re:wild com a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

 

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