Um estudo de seis anos realizado pela Embrapa Arroz e Feijão em Santo Antônio de Goiás (GO) comprovou que os Sistemas Agroflorestais (SAFs) — que combinam o plantio de árvores com lavouras — conseguem dobrar a quantidade de carbono armazenada na terra em comparação ao cultivo comum de soja e milho. O acúmulo foi de 2,24 toneladas por hectare a cada ano. Enquanto o solo enriquecia, o feijão plantado entre as árvores produziu mais de mil quilos por hectare.
Na área do experimento, o carbono no solo saltou de 14 para mais de 27 toneladas por hectare na camada superficial (até 20 cm). Esse ganho aconteceu porque as árvores e o uso de “adubos verdes” (plantas que nutrem a terra) geram uma cobertura constante de matéria orgânica.
Em uma área de um hectare na Fazenda Capivara, os pesquisadores plantaram fileiras de árvores nativas do Cerrado, como aroeira, cagaita e baru. Entre elas, semearam a crotalária, uma planta usada para adubação natural.
O manejo seguiu etapas simples: a crotalária era cortada e o feijão plantado diretamente sobre os restos dessa vegetação. Na entressafra, a crotalária era plantada novamente. O ciclo se repetiu por seis anos, até que as árvores cresceram o suficiente para fazer sombra e impedir novos plantios de grãos no meio. Tudo foi feito sem agrotóxicos, com controle manual de mato e uso de fertilizantes orgânicos.
“A produção de feijão comum em um SAF é perfeitamente viável, contribuindo para a segurança alimentar. Apesar de a crotalária não afetar diretamente a produtividade do grão, o rendimento em torno de 1 tonelada por hectare representa um bom resultado para a safra de verão em sistemas agroecológicos no Cerrado, que dependem apenas da água da chuva”, celebra o pesquisador Agostinho Didonet, idealizador do projeto.
Produção com sustentabilidade
Didonet explica que as plantas de adubação verde ajudam a “alimentar” o solo com o tempo.
“A taxa de acúmulo de carbono orgânico no perfil do solo, entre 0 e 20 centímetros de profundidade, foi de aproximadamente 2,24 toneladas por hectare ao ano, ao longo de seis anos”, enfatiza.
As árvores também fazem sua parte: sozinhas, elas ajudaram a estocar 2,43 toneladas de carbono por hectare ao ano, principalmente através da queda de folhas e galhos, que formam uma camada de proteção (a serapilheira) que devolve nutrientes para a terra ao apodrecer.
Modelo ganha o campo
O sucesso em Goiás já atravessou as cercas da Embrapa. Em parceria com a Emater Goiás e a Universidade Federal de Goiás (UFG), o modelo que mistura grãos com frutas e árvores do Cerrado já foi levado para várias propriedades no interior do estado.
Para a pesquisadora Márcia Carvalho, da Embrapa Pesca e Aquicultura (TO), esse sistema é uma arma contra as mudanças climáticas, pois melhora o microclima e ajuda a enfrentar períodos de seca e calor extremo:
“Além de garantir retorno econômico em curto e longo prazos e capturar carbono da atmosfera por meio das plantas para o solo”, frisa.
Nesse sentido, ela lembra que o SAF, quando manejado sob princípios agroecológicos, pode adquirir múltiplas funções e ser utilizado para a recuperação de nascentes, recomposição de mata ciliar, fornecer energia (lenha e carvão), madeira, abrigo para animais, aves, insetos e polinizadores.
“Além disso, pode melhorar a paisagem e microclima local, e contribuir para a preservação da biodiversidade nativa do Cerrado, garantindo segurança alimentar”.

