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Brasil teve 27 contaminações diárias por agrotóxicos em 2025

Brasil teve 27 contaminações diárias por agrotóxicos em 2025Aumento ocorre em paralelo Foto: Zefe Wu / Pixabay

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O Brasil registrou em 2025 o maior número de intoxicações por agrotóxicos dos últimos 11 anos. Foram 9.729 casos notificados no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde. O número representa aumento de 84% em comparação a 2015 e equivale a uma média de 27 ocorrências por dia.

A análise dos dados foi divulgada pela Repórter Brasil e considera apenas os chamados casos não intencionais, excluindo episódios relacionados a suicídio, aborto ou homicídio. Entre 2015 e 2025, o País acumulou 73.391 notificações de intoxicação por agrotóxicos. A série registrou queda em 2020, mas voltou a crescer a partir do ano seguinte.

Os dados também indicam que os adultos em idade produtiva concentram a maior parte das ocorrências. A faixa entre 20 e 39 anos registrou 23.045 notificações no período, cerca de um terço do total. Somente em 2025, 54% dos casos dessa faixa etária tiveram relação com o trabalho e, dentro desse grupo, 80% estavam associados a agrotóxicos.

Já as crianças pequenas aparecem como um dos grupos mais sensíveis. Entre 2015 e 2025, foram 17.476 notificações envolvendo crianças de 1 a 4 anos, o equivalente a aproximadamente um quarto dos casos registrados no País.

Um estudo publicado recentemente mostra que o Brasil está entre os países com uma das maiores intensidades de toxicidade por área agrícola em todo o planeta, ao lado de China, Argentina, Estados Unidos e Ucrânia.

Oferta e uso cresceram na última década

O aumento das notificações ocorre em paralelo à expansão do mercado de defensivos agrícolas no País. Segundo dados do Ministério da Agricultura e Pecuária publicados no Diário Oficial da União, 914 novos registros de pesticidas foram aprovados em 2025, crescimento de 38% em relação ao ano anterior.

O volume comercializado também segue em alta. Em 2024, as vendas chegaram a 825,8 mil toneladas, avanço de 9,3% frente a 2023, conforme levantamento do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

“De modo geral, quanto mais agrotóxicos disponíveis, isso tende a fazer com que o preço se reduza, fazendo com que o consumo aumente. Se o consumo aumentar, a população vai estar mais exposta e isso pode fazer com que as intoxicações aumentem”, afirma Loredany Rodrigues, professora de economia aplicada da Universidade Federal de Viçosa.

Taxas mais elevadas do País

Em 2025, o Espírito Santo apresentou o maior número de registros, com 23 notificações por 100 mil habitantes. Na sequência aparecem Tocantins, com 16 casos por 100 mil habitantes, e Rondônia, Acre e Roraima, com 11 casos por 100 mil habitantes cada. Nesse contexto, vale destacar a expansão agrícola na região norte do Brasil.

Entre os adultos jovens, os homens são a maioria das vítimas. Das 3.059 pessoas entre 20 e 39 anos intoxicadas em 2025, 73% eram do sexo masculino. Pesquisadores associam esse padrão à predominância masculina nas atividades rurais e ao maior nível de exposição ocupacional nessa faixa etária.

Crianças pequenas estão entre os grupos mais vulneráveis

Especialistas apontam que crianças de até quatro anos possuem maior vulnerabilidade biológica à exposição química. Segundo Wanderlei Pignati, professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e pesquisador dos impactos dos agrotóxicos na saúde humana, o sistema imunológico ainda está em formação nessa fase da vida.

Estudos conduzidos no estado também identificaram resíduos de pesticidas no leite materno. Muitos desses compostos são lipofílicos, ou seja, tendem a se acumular em tecidos gordurosos do organismo.

“Qualquer tipo de variação na saúde dessas crianças vai ser muito mais verificada e notificada do que, por exemplo, em crianças maiores, adolescentes e adultos”, afirma a pesquisadora da Fiocruz”, explica a agrônoma Fernanda Savicki, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

 

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