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Cerrado perde 38% de rios, lagos e lagoas em quatro décadas

Cerrado perde 38% de rios, lagos e lagoas em quatro décadas

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Resumo

  • O Cerrado perdeu 38% da área de  rios, lagos e lagoas entre 1985 e 2025, o que representa uma redução de 348 mil hectares, segundo dados do MapBiomas Água coordenados pelo Ipam.
  • No mesmo período, reservatórios e barragens cresceram 87%, adicionando 496 mil hectares. Apenas a expansão de hidrelétricas alagou 312 mil hectares de vegetação nativa.
  • Pesquisadores alertam que a água artificial não substitui as funções ecológicas da natural. Essa concentração artificial torna o bioma menos resiliente a extremos climáticos e mais vulnerável a secas severas.
  • Desde o início da década de 1990, o Cerrado acumula 25 anos consecutivos com níveis de águas naturais abaixo da média histórica. Em 2025, a área registrada ficou 17% inferior à média.
  • A perda de rios e lagoas está ligada ao desmatamento para a agropecuária, captação excessiva de água, drenagens artificiais e supressão de áreas úmidas, alterando o regime de chuvas.
  • A redução das águas naturais afeta 77% das regiões hidrográficas do Cerrado, com destaque para as bacias do Paraguai (-56%), Paraná (-29%) e São Francisco (-12%).
  • Os efeitos incluem perda de habitats, degradação ambiental, aumento da insegurança hídrica para o abastecimento humano, ameaças à produção agrícola a longo prazo e potenciais conflitos pelo uso da água

Entre 1985 e 2025, a superfície do Cerrado ocupada por rios, lagoas e demais corpos d’água naturais sofreu uma retração de 38%, o que representa a perda de aproximadamente 348 mil hectares. Em contrapartida, as estruturas artificiais construídas pelo homem, como grandes reservatórios e barragens de usinas hidrelétricas, expandiram sua área em 87%, ganhando um acréscimo de 496 mil hectares.

Os dados são de um levantamento liderado por especialistas do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) para a quinta coleção do MapBiomas Água.

De acordo com os autores do estudo, essa migração da água de ambientes naturais para barramentos artificiais coloca em xeque o equilíbrio dos ecossistemas locais e compromete a recarga das reservas estratégicas do bioma, essenciais para o abastecimento e a segurança hídrica de várias regiões do País.

O avanço do setor elétrico nas últimas quatro décadas gerou, ainda, o alagamento de 312 mil hectares de cobertura vegetal nativa — uma extensão territorial que supera o dobro do tamanho do município de São Paulo.

“Quando a água se concentra em estruturas antrópicas, a paisagem fica menos resiliente a eventos climáticos extremos, perdendo a capacidade de regular naturalmente o ciclo da água, tornando-se mais dependente de infraestrutura e mais vulnerável a secas. Os corpos hídricos antrópicos são importantes para o abastecimento de populações humanas, para produção agrícola e de energia elétrica, mas não substituem a função ecológica e os serviços ecossistêmicos da água em corpos hídricos naturais”, destaca Joaquim Pereira, pesquisador do IPAM que atuou na coleta e produção dos dados.

Um ciclo de seca prolongado

O encolhimento da malha aquática natural do Cerrado não é um fenômeno recente; a tendência de queda vem se desenhando desde o começo dos anos 1990. O bioma já soma 25 anos seguidos registrando índices de águas naturais abaixo de sua média histórica, que é calculada em cerca de 680 mil hectares.

No ano de 2025, a área mapeada foi de apenas 559 mil hectares, operando 17% abaixo do patamar esperado.

“A redução das áreas de corpos hídricos naturais pode estar associada a uma combinação de fatores, como conversão da vegetação nativa para expansão da agropecuária e a supressão de áreas úmidas, afetando diretamente o regime de chuvas, geralmente levando à amplificação das secas. Outros fatores incluem a expansão de drenagens artificiais e o aumento na captação de águas. O aumento de corpos hídricos antrópicos geralmente está relacionado à combinação de todos esses fatores, mas não deve ser interpretado como compensação direta pela perda da água em corpos hídricos naturais. Em muitos casos, esse cenário reflete uma maior demanda por armazenamento e controle da água em paisagens cada vez mais transformadas”, explica o pesquisador.

O impacto nas bacias e nas comunidades

A escassez nas fontes naturais já prejudica 77% das regiões hidrográficas que cruzam o Cerrado. Os impactos mais severos em termos de extensão foram mapeados nas bacias do Paraguai (com perda de 894 mil hectares), do Paraná (menos 82 mil hectares) e do Tocantins-Araguaia (menos 61 mil hectares). Em termos proporcionais, o recuo das águas naturais foi mais agudo nas bacias do Paraguai (-56%), Paraná (-29%) e São Francisco (-12%).

“Para esses ecossistemas, isso pode significar perda de habitat, degradação de áreas úmidas, menor conectividade entre ambientes aquáticos e impactos sobre espécies que dependem dos corpos hídricos naturais. Para as populações humanas, a redução pode amplificar a insegurança hídrica, afetar o abastecimento, ameaçar a produção agropecuária no médio e longo prazo e afetar drasticamente os modos de vida tradicionais e a pesca de subsistência, além de intensificar as disputas pelo uso da água”, alerta Pereira.

Por outro lado, o avanço dos espelhos d’água artificiais concentrou-se principalmente na região Amazônica (em trechos de nascentes inseridas no Cerrado), que teve uma expansão de 177 mil hectares em represas; seguida pelas bacias do Tocantins-Araguaia (+171 mil hectares) e do Paraná (+166 mil hectares). Juntas, essas três grandes áreas respondem por 82% de toda a água armazenada artificialmente no bioma.

Os cientistas apontam que esse crescimento acelerado reflete diretamente a forte exploração econômica do solo, o adensamento populacional e a busca por segurança energética. Embora a criação dessas bacias artificiais consiga elevar a oferta de água localmente para fins específicos, o represamento altera profundamente a biodiversidade aquática e pode, paradoxalmente, acelerar a perda de rios e lagos naturais em áreas adjacentes.

“No geral, esse crescimento de corpos hídricos antrópicos acompanha a intensificação do uso da terra, como o aumento da agropecuária, causando maior demanda pelo uso da água, especialmente em regiões com forte sazonalidade e períodos de seca bem marcados. Essas estruturas podem ampliar a disponibilidade de água para usos específicos, mas também podem alterar a dinâmica natural das bacias hidrográficas. Reservatórios e barramentos, por exemplo, modificam o fluxo dos rios, retêm sedimentos, reduzem a conectividade entre ambientes aquáticos e podem afetar a disponibilidade de água a jusante”, conclui o pesquisador.

Fonte: Ipam