HomeEcologia

Licenciamento: Congresso derruba vetos e coloca o agro em risco

Licenciamento: Congresso derruba vetos e coloca o agro em riscoProjeto traz riscos econômicos e de reputação ao agro. Foto: Lula Marques/Agência Brasil

Sem moratória, crédito rural vira estratégia para conter desmate
Excesso de agrotóxicos gera prejuízo no campo, mostra estudo
Produtores brasileiros estão sendo pagos por boas práticas

Por André Garcia

O Congresso derrubou 52 dos 63 vetos ao projeto que flexibiliza as regras de licenciamento ambiental no Brasil, nesta quinta-feira (27). Com a decisão, voltam a valer dispositivos que facilitam a liberação de obras sem estudos detalhados e reduzem o papel dos órgãos federais na definição de critérios ambientais.

Especialistas classificam o resultado como o maior retrocesso ambiental das últimas quatro décadas. O movimento ocorre poucos dias após a Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas, a COP30, realizada em Belém, e reacende o debate sobre coerência entre compromissos internacionais e políticas domésticas.

O líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues (PT-AP), afirmou que o Palácio do Planalto deve recorrer ao STF (Supremo Tribunal Federal).

“A derrubada dos vetos seria um ataque aos fundamentos da nossa política ambiental, conflitando com tudo o que o país defendeu na COP30. Colegiados como o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) e o próprio papel regulamentar da União ficam esvaziados”, afirma Suely Araújo, do Observatório do Clima.

Com a derrubada dos vetos, volta a valer a Licença por Adesão e Compromisso, que permite liberar obras mediante simples declaração do empreendedor, sem a necessidade de estudos ambientais prévios. Também ficam fragilizadas as atribuições de colegiados técnicos e órgãos federais responsáveis por regulamentação e controle.

Outro ponto sensível é a retomada do dispositivo que flexibiliza a proteção da Mata Atlântica. O texto reduz as exigências para suprimir vegetação nativa do bioma, que hoje preserva cerca de 24% de sua cobertura original e desempenha papel crucial para a regulação hídrica e climática.

O entendimento é de que a derrubada dos vetos abre brechas para aumento de desmatamento, queimadas, conflitos territoriais e insegurança jurídica. Também estão em risco direitos de povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais.

“A perspectiva de derrubada dos vetos pode nos levar ao precipício ambiental e climático, com mais desastres, como os de Mariana e de Brumadinho”, diz Mauricio Guetta, da Avaaz.

Impacto para o agro

Embora parte do agronegócio defenda a lei como um avanço, especialistas e instituições apontam para riscos econômicos e de reputação que podem afetar o setor. O entendimento é de que a derrubada dos vetos abre brechas para aumento de desmatamento, queimadas, conflitos territoriais e insegurança jurídica.

Foi o que alertou o relatório da FGV Bioeconomia, assinado pelo pesquisador Leonardo Munhoz, que reconhece pontos positivos do projeto, mas alerta que, sem regras complementares bem definidas, a nova lei pode acabar gerando a mesma insegurança jurídica que promete resolver.

Como exemplos, ele cita a forma como o projeto trata a Licença por Adesão e Compromisso (LAC) e a mudança feita na Lei da Mata Atlântica, incluída por emenda no Senado.

“Essa proposta, ao alinhar-se com precedentes do STF e práticas internacionais, não configura retrocesso ambiental, mas depende da plena implementação do Código Florestal para garantir sua efetividade. Igualmente, precisará maiores esclarecimentos de alguns dispositivos a serem feitos na regulamentação da norma, uma vez sancionada”, avalia o autor.

Atalho para a devastação

A mudança no licenciamento ambiental começou a avançar em julho, quando a Câmara aprovou o projeto que reformulava as regras e incorporava 29 emendas adicionadas pelo Senado. O texto ficou conhecido por flexibilizar exigências e por reduzir etapas de análise antes da liberação de obras.

Em agosto, foi publicada a Medida Provisória 1.308, que criou um modelo simplificado para empreendimentos classificados como estratégicos. Organizações ambientais apontaram que a MP poderia abrir caminhos acelerados para obras de grande impacto, como estradas, hidrovias e projetos de exploração de petróleo em áreas sensíveis.

Em setembro, um levantamento do Observatório do Clima identificou 833 emendas do Congresso à MP. Segundo a instituição, a maior parte das propostas retoma dispositivos já rejeitados e amplia pontos considerados retrocessos ambientais, criando uma estratégia para reconstruir o chamado “PL da Devastação”.

 

LEIA MAIS:

Pecuaristas lançam movimento pelo clima

Sancionado com 63 vetos PL do licenciamento ambiental

PL do licenciamento precisa de mais clareza, alerta FGV

Agro precisa escolher entre retrocesso ambiental e liderança global

Nova lei ambiental põe agro em posição crítica, alerta Carlos Nobre

Nova lei de licenciamento ambiental pode prejudicar o agronegócio

PL do Licenciamento Ambiental pode fechar portas na Europa

PL reacende debate sobre licenciamento ambiental