Resumo:
- O Cerrado tem 1,9 milhão de hectares irrigados em 2025, 53,2% da área irrigada do Brasil, e a área cresceu 1,8 milhão de hectares desde 1985, quase toda com pivôs centrais, segundo a Coleção 11 do MapBiomas.
- No Centro-Oeste, Goiás lidera, com 339 mil hectares irrigados em sua porção do Cerrado, seguido por Mato Grosso, com 98 mil, e Mato Grosso do Sul, com 56 mil, de acordo com o MapBiomas.
- A chuva nas bacias do Cerrado caiu 21% e a vazão dos rios, 27%, em cerca de 50 anos, segundo o relatório “Cerrado: O Elo Sagrado das Águas do Brasil”, publicado em 2025.
- A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) projeta que as mudanças climáticas podem elevar em 15% a demanda de água por hectare irrigado até 2040.
- Estudo publicado na Nature Communications mostra que, em mais da metade dos poços analisados no país, o nível da água está abaixo do rio mais próximo, o que pode fazer o rio perder água para o subsolo; o bombeamento para irrigação está entre as causas.
Por André Garcia
O Cerrado tem 1,9 milhão de hectares (ha) irrigados em 2025, 53,2% de toda a área irrigada do Brasil, segundo dados da Coleção 11 do MapBiomas divulgados nesta quinta-feira, 8/10. A área cresceu 1,8 milhão de ha desde 1985, quase toda com pivôs centrais, enquanto a chuva no bioma diminui e as lavouras passam a precisar de mais água.
Como o Gigante 163 já mostrou, sem controle, a estratégia retira água dos mesmos rios e aquíferos que abastecem a produção, o que reduz a água disponível nos períodos de estiagem.
O risco aumenta com a perda de vegetação às margens dos rios. Entre 1985 e 2025, o Cerrado perdeu 13,9 milhões de ha de vegetação nativa a até 500 metros de cursos d’água, segundo o MapBiomas. Essa vegetação protege o solo, reduz a erosão e evita que sedimentos cheguem aos rios.
“A parte que é mais alta do rio pode repercutir sobre quem está utilizando a água lá na parte mais baixa. Então, dependendo da bacia, isso também pode envolver questões relacionadas ao abastecimento urbano, rural, irrigação, a própria produção agropecuária, pesca, turismo e a geração de energia”, explicou à Agência Brasil Bárbara Costa, pesquisadora do MapBiomas.
Goiás lidera irrigação no Centro-Oeste
Minas Gerais, Bahia e Goiás concentram 74,1% da área irrigada do bioma. No Centro-Oeste, Goiás lidera, com 339 mil ha irrigados, seguido por Mato Grosso, com 98 mil ha, e Mato Grosso do Sul, com 56 mil ha.
Um dos principais polos é Cristalina (GO), o quarto município do país em área irrigada por pivô, com 69,6 mil ha, segundo levantamento da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Milho e Sorgo. O estudo mostra que Mato Grosso do Sul teve a maior alta percentual entre os estados: 60,8% entre 2022 e 2024.

Crédito: MapBiomas
Menos chuva eleva demanda
A pressão por irrigação tende a crescer. No ano passado, o relatório “Cerrado: O Elo Sagrado das Águas do Brasil” mostrou que a chuva nas bacias do Cerrado caiu 21% em cerca de 50 anos. No mesmo intervalo, a vazão dos rios caiu 27% em decorrência do desmatamento para a agropecuária e das mudanças climáticas.
A Embrapa projeta ainda que as mudanças climáticas podem elevar em 15% a demanda de água por hectare irrigado até 2040.
Retirada excessiva reduz vazão
A retirada de água subterrânea também pesa. Estudo publicado na revista Nature Communications mostrou que, em mais da metade dos poços analisados no país, o nível da água está abaixo do rio mais próximo, o que pode fazer o rio perder água para o subsolo. O bombeamento para irrigação está entre as principais causas.
No Cerrado, o risco é maior, segundo Paulo Tarso Sanches de Oliveira, coautor do estudo e professor de hidrologia e recursos hídricos da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).
“O equilíbrio entre rios e aquíferos na região pode ser comprometido pelas recentes mudanças no uso e cobertura do solo, impulsionadas pelo avanço da fronteira agrícola e, sobretudo, pela crescente demanda por irrigação”, disse o pesquisador à época da divulgação do estudo.
Saiba mais
Coleção 11 do MapBiomas – É a série de mapas anuais de cobertura e uso da terra no Brasil produzida pela rede MapBiomas, que reúne universidades, organizações da sociedade civil e empresas de tecnologia. A edição cobre de 1985 a 2025 e classifica imagens de satélite Landsat com resolução de 30 metros, o que permite acompanhar, ano a ano, a vegetação nativa, a agropecuária, as áreas irrigadas e outros usos em todos os biomas do país.
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