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Planeta caminha para pico de aquecimento

Planeta caminha para pico de aquecimento

Meio mundo enfrentou um mês extra de calor extremo no último ano
Mundo nunca esteve tão perto de um colapso climático
Amazônia atinge limite máximo de temperatura; Pantanal supera

Resumo

  • O relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) aponta que o planeta deve romper temporariamente o limite crítico de 1,5°C de aquecimento global, com pico projetado de 1,8°C no cenário mais otimista.
  • O documento alerta para o risco de acionamento de “pontos de não retorno” (tipping points), que incluem a desestabilização de mantos de gelo, alterações nas correntes do Atlântico (Amoc) e mudanças profundas na Floresta Amazônica.
  • Sem medidas de adaptação, a produção global de alimentos poderá cair até 14% até 2050, e o derretimento de geleiras pode elevar o nível do mar em até 13 centímetros até 2100.
  • A estratégia recomendada exige a redução rápida de emissões para alcançar o zero líquido, seguida pela remoção de dióxido de carbono da atmosfera por meio de reflorestamento e tecnologias de captura.
  • Especialistas destacam que a adaptação climática deve ser planejada com urgência para evitar que o mundo reaja apenas após o surgimento de crises severas, cobrando maior responsabilidade dos países historicamente mais poluidores.

 

O relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) lançado nesta semana traz um alerta duro para o futuro climático do planeta: o mundo caminha para romper o limite crítico de 1,5°C de aquecimento global estabelecido pelo Acordo de Paris, e mesmo no cenário mais otimizado a temperatura média da Terra deve atingir um pico de 1,8°C antes de começar a baixar.

Para o secretário-geral da ONU, António Guterres, os recentes episódios de calor extremo, incêndios florestais e enchentes mortais já servem como prévia do que está por vir caso a mitigação não seja acelerada. O objetivo principal agora, segundo o documento, é garantir que essa ultrapassagem seja a mais curta e branda possível.

A diferença de poucos décimos de grau carrega um peso enorme para o sistema climático global. O aquecimento prolongado acima de 1,5°C pode acionar os chamados tipping points (pontos de não retorno), que são alterações climáticas profundas e difíceis de reverter, como a desestabilização de mantos de gelo, mudanças drásticas na Floresta Amazônica e o enfraquecimento da Circulação de Revolvimento Meridional do Atlântico (Amoc), sistema de correntes vitais para a regulação do clima no planeta.

Os reflexos disso na economia e na vida cotidiana também aparecem no horizonte: sem investimentos pesados em adaptação, a produção global de alimentos pode minguar até 14% até 2050. Além disso, as geleiras correm o risco de perder mais de um quarto de sua massa até o final do século, o que adicionaria até 13 centímetros ao nível dos oceanos.

Diante do atraso histórico na redução das emissões de gases de efeito estufa, a estratégia desenhada pelo Pnuma apoia-se em dois pilares.

O primeiro exige zerar as emissões líquidas de carbono e, posteriormente, retirar mais CO₂ da atmosfera do que o lançado — seja por meio de reflorestamento, seja por tecnologias de captura. O relatório pondera, contudo, que essas ferramentas de remoção têm capacidade limitada e não substituem o corte imediato na fonte.

O segundo pilar é a adaptação urgente das cidades, da infraestrutura e da agricultura. Como resume a pesquisadora Joana Portugal Pereira, professora da UFRJ e da Universidade de Lisboa, o grande perigo é o mundo cair na armadilha de reagir apenas quando a crise bate à porta.

Como a adaptação leva anos para sair do papel, a implementação de planos preventivos precisa acontecer agora, cobrando principalmente que os países historicamente mais poluidores assumam a dianteira do esforço global.