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Risco de poluição da água ameaça regiões agrícolas

Risco de poluição da água ameaça regiões agrícolasFertirrigação da cana-de-açúcar com vinhaça. Foto: Embrapa

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Resumo

  • Municípios de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e da região do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) concentram as áreas com maior suscetibilidade à poluição da água causada pela agropecuária.
  • O levantamento identificou onde há mais chances de poluição (poluição difusa), impulsionada pelo uso intenso de insumos, condições ambientais e eventos climáticos extremos.
  • O estudo destaca o impacto de nutrientes como nitrogênio e fósforo. O uso de fertilizantes no Brasil cresceu de 14,7 milhões de toneladas em 1998 para 45,6 milhões em 2024, com projeção de chegar a 65 milhões até 2050.
  • Para mapear as prioridades, os pesquisadores cruzaram dados nacionais utilizando cinco indicadores principais: quantidade de fertilizantes por cultura, tamanho dos rebanhos, fertirrigação da cana, balanço hídrico das microbacias e vulnerabilidade do solo à erosão.
  • Historicamente focado em esgoto urbano, o monitoramento da água no Brasil precisa se expandir para o campo. A Embrapa recomenda práticas para reduzir o problema na origem, como conservação do solo, manejo adequado de adubos e manutenção de vegetação nativa nas margens dos rios.

 

Municípios de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e da região do Matopiba — que abrange partes do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia — concentram as áreas mais vulneráveis e suscetíveis à poluição difusa da água gerada por práticas não sustentáveis da agropecuária, de acordo com um estudo realizado por pesquisadores da Embrapa Meio Ambiente (SP) e da Embrapa Solos (RJ).

O trabalho mapeou e classificou os municípios brasileiros mais vulneráveis para identificar as regiões rurais que demandam maior atenção quanto ao monitoramento da qualidade da água, integrando análises de vulnerabilidade climática e focando especialmente na contaminação por nitrogênio e fósforo.

Para compreender o problema, o pesquisador Alexandre Ortega, da Embrapa Solos, explica que a poluição dos recursos hídricos ocorre por fontes pontuais ou difusas. As fontes pontuais, como esgotos urbanos e efluentes industriais, são relativamente fáceis de identificar e controlar.

“Já as fontes difusas apresentam comportamento muito mais complexo. Elas resultam do escoamento superficial das águas da chuva, que transportam resíduos provenientes das áreas rurais, como fertilizantes, defensivos agrícolas, sedimentos e nutrientes, até rios, córregos e reservatórios”, esclarece Ortega.

As regiões consideradas mais críticas combinam intensa atividade agropecuária, elevado uso de insumos e condições ambientais favoráveis ao transporte de sedimentos, um cenário que pode ser severamente agravado por eventos climáticos extremos.

O monitoramento da qualidade da água no Brasil tem se concentrado historicamente nas áreas urbanas para priorizar o controle da poluição pontual oriunda de esgotos, visando a proteção da saúde pública.

No entanto, ampliar essa vigilância para as áreas rurais é fundamental para garantir a segurança hídrica e preservar os ecossistemas aquáticos. Nesse sentido, o mapeamento gerado pelo estudo serve para orientar políticas públicas de controle de fontes difusas.

Para chegar a esses resultados, a equipe liderada por Rachel Prado utilizou Sistemas de Informação Geográfica para cruzar grandes bases de dados nacionais a partir de cinco indicadores principais de fontes de poluição difusa: a entrega de fertilizantes por cultura (nitrogenados, fosfatados e potássicos), o efetivo de rebanhos, a área de cana-de-açúcar submetida à fertirrigação com vinhaça, o balanço hídrico quantitativo por microbacias e a erodibilidade do solo à erosão hídrica.

Cada variável recebeu uma classificação de um a cinco quanto à necessidade de monitoramento, sendo um para muito baixa prioridade e cinco para muito alta. A partir disso, foram gerados dois mapas síntese: o primeiro identifica os municípios prioritários com base estritamente nas fontes difusas da agropecuária, enquanto o segundo incorpora os indicadores de vulnerabilidade às mudanças climáticas, considerando o balanço hídrico quantitativo e a erodibilidade do solo.

O estudo detalha que grande parte dos nutrientes aplicados na lavoura que não são aproveitados pelas plantas acaba se perdendo. O excedente é carregado pelo escoamento superficial durante as chuvas ou se infiltra até atingir o lençol freático, havendo estimativas de que cerca de metade do nitrogênio utilizado se perde para o ambiente, gerando prejuízos econômicos e ecológicos.

Além disso, o trabalho alerta para o crescimento expressivo no consumo de fertilizantes no País: o volume entregue aos produtores saltou de 14,7 milhões de toneladas em 1998 para 40,6 milhões em 2020, atingiu 45,6 milhões em 2024 e tem projeção de alcançar cerca de 65 milhões de toneladas até 2050.

Como forma de mitigar os riscos de contaminação e proteger a segurança hídrica do Brasil— que já enfrenta pressões crescentes devido a alterações no regime de chuvas, crescimento da demanda e efeitos das mudanças climáticas —, a Embrapa recomenda a adoção de técnicas de conservação do solo, o uso e manejo adequado de fertilizantes e a manutenção de áreas com vegetação nativa em zonas ripárias.

Essas medidas evitam o desperdício de insumos valiosos e protegem os cursos d’água no meio rural.

O estudo completo, intitulado “Mapeamento e priorização de municípios brasileiros quanto às fontes de poluição difusa da água advindas da agropecuária e vulnerabilidade às mudanças climáticas”, é assinado por Rachel Bardy Prado, Pedro Gerhard, Robson Barizon, Gustavo Bayma e Sandra Furlan Nogueira, da Embrapa Meio Ambiente, em conjunto com Alexandre Ortega Gonçalves, da Embrapa Solos.