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Saúde do solo é o foco da agricultura regenerativa

Saúde do solo é o foco da agricultura regenerativaModelo propõe produção agrícola com preservação do meio ambiente. Foto: Allonda

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Por André Garcia

Conhecido como revolução verde, o fenômeno que incorporou tecnologia industrial ao campo e lançou a agricultura a escalas globais de produtividade entre as décadas de 60 e 70 acentua seus sinais de desgaste.

Seja pela preservação da natureza, pela economia nos custos de produção ou pela demanda crescente dos mercados por sustentabilidade, alternativas como a agroecologia, agricultura orgânica e natural, por outro lado, começam a chamar atenção de agricultores, ainda que timidamente.

É neste contexto que floresce a agricultura regenerativa. O modelo propõe o desenvolvimento paralelo da produção rural com a recuperação da terra e a preservação do meio ambiente. O resultado é a restauração de áreas degradadas, a conservação de espécies animais, incluindo fungos e bactérias necessários ao desenvolvimento das plantas, e aumento da captura de carbono no solo. De quebra, há redução de gastos com adubo e eliminação total do uso de agroquímicos.

É o que explicou ao Gigante 163 a bióloga Rafaella Teles Arantes Felipe, que ministra a disciplina de Agroecologia na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) – Campus Sinop.

“Nós precisamos de outra revolução, porque a verde já não dá mais conta. O respeito à natureza é mais comum entre as comunidades tradicionais, que são as que mais preservam no Brasil, mas ainda assim, o conhecimento sobre a agricultura regenerativa precisa ser mais abrangente e chegar a todos.”

Mestre e doutora em Fisiologia e Bioquímica de Plantas, Rafaella trabalha desde 2019 com uma equipe multidisciplinar com sistemas agroflorestais e agroecológicos em propriedades familiares, com foco em saúde do solo e autonomia dos pequenos agricultores.

“É um debate que vai além da temática ambiental, porque trabalhamos também com questões éticas, debatemos papéis de gênero e o papel das mulheres nestas comunidades”, diz.

Saúde do solo e monocultura

O foco da agricultura regenerativa é a saúde do solo, uma vez que é ele que vai fornecer os nutrientes que as plantas precisam.

“Quando você olha para o Cerrado, por exemplo, há árvores de diferentes alturas e diferentes características. Isso é o que a gente vê por cima, mas, por baixo do solo há uma complexa rede de bactérias e fungos que, simbioticamente, fazem trocas de nutrientes. Ninguém precisa ir lá adubar o Cerrado”, afirma Rafaella.

Isso porque a adubação ali ocorre naturalmente, a partir da queda de folhas. O perigo da monocultura está, portanto, no desequilíbrio que ela causa nesta cadeia, uma vez que os agroquímicos levam à mortalidade de microorganismos e reduzem a rede de vida. Além disso, enquanto um pé de soja, por exemplo, apresenta entre 10 e 15 cm de profundidade da raiz, árvores e outras plantas podem chegar a metros de profundidade, o que é fundamental para a saúde da terra.

Logo, para compensar a perda de nutrientes, ocorre o investimento em adubação, que, como consequência, atrai pragas.

“Os insetos, chamados de pragas, atacam a plantas que oferecem alimento mais adequado para ele, mais aminoácidos livres e de açúcares solúveis. Na agricultura convencional, em decorrência da alta aplicação de adubo, a planta produz estas moléculas em excesso, então há um desequilíbrio. Na agricultura regenerativa, essa liberação é mais lenta, então não há sobra destes aminoácidos para os insetos.”

Considerando estes fatores fica mais fácil entender por que a modalidade tem chamado atenção também pela economia.

“Quando você elimina a necessidade de gasto com agroquímicos e adubação, também dispensa os inseticidas. Então é claro que há economia para o produtor. Aqui na região estamos acostumados a ver os números astronômicos relacionados às safras de grãos, mas é preciso começar a considerar também as despesas que elas demandaram”, sugere.

Transição

Para que o método de produção seja classificado como de regeneração, uma série de critérios precisa ser levada em consideração, como a adoção da rotação de culturas, inserção de plantas de cobertura, redução do arado, desenvolvimento de outras plantas na pastagem, redução no uso de fertilizantes e defensivos, promoção do bem-estar animal e o incentivo a práticas justas de trabalho para os agricultores.

De acordo com Rafaella, embora ainda não haja um sistema completo de agricultura regenerativa na região onde atua, projetos de agroecologia caminham para esta transição.

“Por enquanto trabalhamos com sistemas agroflorestais, com integração de árvores, arbustos, hortaliças, culturas agrícolas e em algumas áreas com a criação de abelhas nativas sem ferrão. Além de todo o benefício ambiental, esse conhecimento fortalece a renda das famílias”, afirma.