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Calor extremo fez trabalhador rural perder 295 horas de serviço

Calor extremo fez trabalhador rural perder 295 horas de serviço

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O sol forte sempre foi um companheiro do trabalhador rural, mas as temperaturas extremas transformaram o clima no campo em um adversário perigoso. Uma pesquisa da Unidade de Inteligência sobre Energia e Clima (ECIU) revelou que, devido ao estresse térmico provocado pelo calor excessivo, trabalhadores rurais perderam, em média, 295 horas de atividade devido ao estresse térmico em 2024, ano do último El Niño. Foram quase 25 dias de trabalho perdidos.

O número é 23% maior do que o registrado em 1990, mostrando que a crise climática saiu dos relatórios e já dita o ritmo das lavouras.

O Brasil faz parte de um bloco de 15 grandes produtores globais de alimentos (na América Latina, África e Ásia) monitorados pelo estudo. Juntos, esses países viram impressionantes 216 bilhões de horas de trabalho evaporarem pelo calor.

Na prática, cada trabalhador dessas regiões ficou de braços cruzados por cerca de 590 horas — o equivalente a quase 50 dias de serviço perdidos por ano.

Essa perda de ritmo na roça mexe diretamente com o bolso do consumidor. Menos horas trabalhadas significam menor produtividade e, consequentemente, alimentos mais caros nas prateleiras.

O ano em que o planeta ferveu

Os termômetros não deram trégua para nenhum setor econômico em 2024. De acordo com o Lancet Countdown, o mundo perdeu 640 bilhões de horas potenciais de trabalho em todas as áreas devido ao calor. O montante é um recorde histórico absoluto, ficando 98% acima da média dos anos 1990.

O motivo? O clima global operou em níveis nunca antes vistos, consolidando o período recente como o mais quente da história.

A situação pode ficar ainda mais complexa. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) aponta 80% de chances de um novo e intenso El Niño se formar. Em um mundo que já opera 1,4°C acima dos níveis pré-industriais, a mistura desse fenômeno com o aquecimento global pode fazer os termômetros explodirem em novos recordes.

O Brasil conhece bem os efeitos dessa combinação. Recentemente, o país viveu extremos opostos:o Norte e o Centro-Oeste sofreram com  uma seca mais severa, enquanto o Sul enfrentou enchentes históricas que destruíram cidades e infraestruturas produtivas. Chuvas volumosas continuaram castigando as lavouras sulistas, deixando o setor em alerta constante.

Culturas tradicionais na linha de frente

Se o ritmo do aquecimento continuar o mesmo, a temperatura média no Brasil pode subir 2,2°C até 2050. Os impactos já castigam plantações tradicionais da nossa mesa e da nossa pauta de exportação, como o café, a mandioca, o cacau, o arroz e o trigo, que acumulam perdas por causa de secas prolongadas e frentes de calor.

Quem está na linha de frente sofre mais. Os trabalhadores do campo concentram 63,5% de todo o tempo de trabalho perdido no mundo por causa do calor — índice que chega a 75,5% em países com baixo IDH.

Para Gareth Redmond-King, chefe do Programa Internacional da ECIU, o cenário é de alerta para a sobrevivência do abastecimento:

“O risco de uma crise alimentar está aumentando à medida que as mudanças climáticas afetam não apenas as lavouras, mas também os trabalhadores responsáveis pela produção dos alimentos”, afirma.

O especialista cita o exemplo da Índia, onde os termômetros batem perto dos 50°C, tornando a rotina ao ar livre uma ameaça à vida e desregulando o comércio de comida.

“Com um forte El Niño prestes a se somar aos impactos das mudanças climáticas, a segurança alimentar ficará cada vez mais vulnerável se agricultores não receberem apoio para adotar formas de agricultura mais resilientes e sustentáveis. Mas, sem interromper as mudanças climáticas, o que exige atingir emissões líquidas zero, o calor continuará aumentando e nenhuma forma de adaptação será suficiente para proteger agricultores e a produção de alimentos”, alerta Redmond-King.

Fonte: Presente Rural