Resumo
- El Niño foi confirmado pela NOAA em 11 de junho, com 63% de chance de ser muito forte entre novembro e janeiro
- No Centro-Oeste, a previsão é de chuvas irregulares e abaixo da média, com veranicos e risco de perdas e replantio
- Alta dos fertilizantes, puxada por conflitos no Oriente Médio, pressiona um setor que importa cerca de 85% do que consome
- Endividamento bate recorde: 1.990 pedidos de recuperação judicial no agro em 2025, alta de 56,4% sobre 2024
Por André Garcia
Clima, preço dos insumos e dívida formam um cerco para o produtor rural na safra 2026/27. Não bastasse o endividamento em alta e o custo elevado dos fertilizantes – agravado por conflitos no Oriente Médio nos últimos meses, a previsão de um El Niño intenso é apontada por especialistas como a gota d’água sobre um copo já cheio.
O aperto contrasta com o passado recente. Em 2025, a agropecuária cresceu 12%, um resultado fora da curva puxado por clima favorável, safra recorde e forte volume de abate, segundo o IBGE. A safra 2026/27 se desenha como o oposto, com soja e milho a preços baixos no momento em que os custos voltam a subir.
“A gente já vem de uma sequência de anos em que, apesar da safra recorde, o preço muito baixo e os custos muito altos vêm pressionando muito o produtor”, disse o professor Fábio Marin, da Esalq/USP, em entrevista ao programa “O que Diz a Ciência”, da TV USP Piracicaba.
A volta do El Niño
No boletim de 11 de junho, o Centro de Previsão Climática (CPC), ligado à NOAA, agência de oceanos e atmosfera dos Estados Unidos, confirmou o início do fenômeno e indicou que há 63% de chance de que o evento seja muito forte entre novembro e janeiro, o que o colocaria entre os maiores já registrados desde 1950.
No Centro-Oeste, o cenário previsto é de chuvas irregulares e abaixo da média, com veranicos prolongados e temperaturas elevadas. Os modelos climáticos indicam que outubro e novembro devem ser especialmente secos e quentes, o que aumenta o risco de perdas e de um replantio mais caro.
Fertilizantes sob pressão
Em outra frente, os fertilizantes reforçam o problema da dependência do País, que importa cerca de 85% do que consome. No auge da pressão, em março, a ureia chegou a US$ 710 por tonelada no porto brasileiro, alta de 89% sobre o ano anterior, segundo levantamento do Itaú BBA divulgado pela CNN.
“A gente já vinha num aumento de custo de insumo, e os fertilizantes, de que a gente depende bastante, devem subir ainda mais”, afirmou Marin.
Recentemente, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) advertiu que as interrupções no Estreito de Ormuz encareceram os insumos agrícolas no mundo. Para o diretor-geral da FAO, Qu Dongyu, o risco é maior diante de um El Niño potencialmente forte.
“O que testemunhamos hoje não é apenas uma crise geopolítica, é um choque sistêmico para o sistema agroalimentar global. As decisões que tomarmos agora determinarão se isso continuará sendo um choque administrável ou evoluirá para uma crise mais profunda de segurança alimentar em 2026 e 2027”, disse.
Para além dos grãos
Os impactos vão muito além da produção de grãos. Recentemente, a Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato) alertou para o risco de desabastecimento de fosfato bicálcico, insumo essencial para o sal mineral usado na alimentação do gado e sobre os fosfatados usados na agricultura.
“Qualquer instabilidade no fornecimento de sal mineral atinge milhares de produtores. O pecuarista está sendo pressionado pela alta dos insumos, pelo risco de falta de produto, pela preocupação com vacinas contra clostridioses e pela queda nos preços pagos pela indústria. Essa combinação preocupa muito”, afirmou o vice-presidente da entidade, Amarildo Merotti.
Endividamento recorde
Soma-se a esses problemas o endividamento do setor. O agro registrou 1.990 pedidos de recuperação judicial em 2025, o maior volume desde o início da série, em 2021, e alta de 56,4% sobre 2024, segundo a Serasa Experian. A inadimplência rural também subiu, atingindo 8,3% da população do campo no terceiro trimestre do ano.
“O número de recuperações judiciais que a gente tem, de produtores que não estão conseguindo manter mais a propriedade, tem aumentado. Isso é meio a gota d’água num copo cheio, não é um fenômeno que está acontecendo depois de uma sequência de anos bons”, disse o pesquisador.
Atravessando o cerco
Apesar do cenário, Marin evita o alarmismo. Ele lembra que a variabilidade faz parte da atividade e que anos ruins se alternam com anos bons. A recomendação é estratégica: este não é o momento de apostar em alta produtividade, e sim de manter reserva financeira para atravessar a fase difícil.
“Anos bons vieram e virão novamente. A gente está lidando com a atmosfera, e a variabilidade é a palavra-chave. Tem um ano bom, um ano ruim, uma sequência boa, uma sequência ruim, e a gente sempre precisa estar preparado para lidar com essas circunstâncias”, afirmou.
Veja também como o produtor do Centro-Oeste pode se preparar para a safra.
Saiba mais
O El Niño é o aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico equatorial, um fenômeno natural que se repete a cada poucos anos e altera o regime de chuvas em diferentes partes do mundo. No Brasil, costuma trazer mais chuva ao Sul e seca ao Centro-Norte. É monitorado pela NOAA, agência de oceanos e atmosfera dos Estados Unidos, que atualiza os dados a cada duas semanas. O próximo boletim sai em 9 de julho.
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