Por André Garcia
A previsão de retorno do El Niño ao longo de 2026 acende um alerta para o campo. O aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial deve intensificar eventos extremos — como ondas de calor, tempestades severas e chuvas irregulares — a partir de maio, com intensidade possivelmente moderada a forte, em um padrão que remete ao observado em 2023.
Para o produtor, o impacto vai além dos eventos isolados. O fenômeno tende a desorganizar o calendário climático: o Sul deve enfrentar excesso de chuvas, enquanto áreas da Amazônia, Nordeste devem sofrer com a seca, o Centro-Oeste tende a ter longos períodos de seca e irregularidade de chuvas. Essa instabilidade dificulta o planejamento do plantio e a manutenção da umidade do solo.
Setor de seguros já sente pressão
A instabilidade climática já pressiona o setor segurador. Segundo a advogada Bruna Carolina Bianchi de Miranda, em artigo para a Seguro Rural Brasil, o ramo pagou R$ 997,7 milhões em indenizações apenas no primeiro semestre do ano passado, em decorrência de eventos extremos.
“Além do aumento dos sinistros, houve queda na arrecadação de prêmios, agravada por uma subvenção via Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) abaixo do nível considerado essencial pelo mercado”, observa a especialista.
Para ela, a realidade atual exige uma revisão urgente nas metodologias de cálculo de risco pelas seguradoras.
O desafio da subvenção pública
A expansão do seguro rural no Brasil ainda esbarra na dependência de recursos federais. Embora o aporte recente de R$ 210 milhões para o Rio Grande do Sul tenha sido um alívio para cerca de 30 mil contratos, o setor alerta que falta um financiamento estrutural que acompanhe a escala do agronegócio nacional.
Bruna defende que o diálogo entre os setores público e privado seja intensificado. “É preciso ampliar os debates sobre gestão de risco para impulsionar o mercado segurador e conscientizar a sociedade sobre o papel estratégico do seguro”, afirma.
Tecnologia como aliada na gestão de risco
Em um cenário de instabilidade, ferramentas técnicas tornam-se indispensáveis. O Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC) é o principal guia para o produtor orientar sua semeadura com base em probabilidades reais de perdas.
Aliado ao uso de bases de dados compartilhadas de sinistros, o setor caminha para um modelo de gestão mais técnico. Esse uso intensivo de dados permite não apenas melhorar a regulação e prevenir fraudes, mas, principalmente, antecipar cenários adversos, permitindo que o produtor reduza sua exposição financeira antes mesmo do plantio começar.
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