Por André Garcia
O esvaziamento da Moratória da Soja não simplificou o ambiente de negócios para o setor. Ao contrário, abriu um período de maior fragmentação de regras, prazos e exigências privadas, justamente no momento em que grandes tradings anunciavam novos compromissos globais de combate ao desmatamento.
Esse movimento confirma um cenário que já vinha sendo apontado após a saída das grandes tradings do acordo e que agora começa a se materializar. Nesta semana, grandes redes varejistas da Europa e do Reino Unido cobraram formalmente as maiores tradings globais sobre a manutenção dos critérios do pacto e alertaram que ele ainda está valendo.
A reação do varejo europeu e o papel de Mato Grosso para o enfraquecimento do pacto também foram destaque em reportagens do jornal britânico The Guardian e da agência Reuters, que reforçam que a demanda internacional por rastreabilidade ambiental segue ativa.
Novos compromissos
De acordo com a Reuters, o esvaziamento da Moratória da Soja ocorreu justamente quando novos compromissos corporativos contra o desmatamento deveriam entrar em vigor. Anunciadas desde 2021 por tradings como ADM, Bunge, Cargill, Louis Dreyfus, Amaggi e Cofco, as metas preveem início entre 2025 e 2026.
Agora as tradings admitem datas de corte mais recentes, permitindo a compra de soja produzida em áreas desmatadas entre 2020 e 2025. Procuradas, as empresas não detalharam como pretendem assegurar o cumprimento dessas metas após o fim do acordo coletivo.
Recuo das tradings
Ao noticiar a pressão dos varejistas europeus, o The Guardian destacou que, nos últimos dois anos, a Moratória da Soja passou a sofrer ataques intensos do agronegócio brasileiro, especialmente em Mato Grosso, principal estado produtor do País. No estado, parlamentares revogaram incentivos fiscais de empresas que aderiam ao pacto.
“As tradings recuaram de um acordo ambiental de relevância global, em linha com uma tendência mais ampla, liderada pelos Estados Unidos, de grandes corporações abandonarem compromissos ambientais, sociais e de governança”, ressaltou o jornal britânico.
Compradores finais evitam detalhar monitoramento
Grande parte da soja brasileira vira ração animal e abastece supermercados e redes globais de alimentação, como o McDonald’s. Apesar desse elo, grupos que representam esses compradores finais têm evitado esclarecer como irão monitorar a ligação entre a carne comercializada e soja associada ao desmatamento.
Dias após a saída das grandes tradings da moratória, redes de restaurantes, varejistas de alimentos e a FEFAC, poderoso lobby europeu da indústria de ração animal — responsável por absorver quase metade do farelo de soja exportado pelo Brasil — evitaram comentários públicos ou se mantiveram vagos quanto a possíveis medidas.
“Parece estranho adotar proteções ambientais mais fortes ao mesmo tempo em que se abandona um mecanismo comprovado e eficaz para salvar a Amazônia. Eles estão desmontando justamente o mecanismo que sustentou todas as suas alegações de responsabilidade ambiental”, disse Glenn Hurowitz, diretor-executivo da Mighty Earth.
Regulação avança apesar do fim do pacto
O debate ocorre em paralelo ao avanço da regulação internacional. A União Europeia deve adotar neste ano legislação que proíbe a importação de produtos associados a desmatamento ocorrido após 2020. Ao mesmo tempo, o acordo Mercosul-EU pode ampliar o acesso de produtos agrícolas brasileiros à Europa.
Embora a China siga como principal destino da soja brasileira, o peso crescente das exigências europeias reforça que o fim da moratória não elimina a pressão por comprovação de origem, apenas desloca essa cobrança para mecanismos privados e auditorias individuais.
Em entrevista recente ao Gigante 163, o gerente de Políticas Públicas do Imaflora, Lisandro Inakake, já havia adiantado que, com a saída da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) e de 20 das maiores tradings do pacto, o setor poderia ficar mais vulnerável às exigências internacionais.
“A moratória é o benchmark da agenda de cadeias livres de desmatamento em commodities produzidas nos trópicos. Novos arranjos potencialmente alterarão os requisitos básicos da Moratória, como o critério desmatamento zero a partir de 2008 e o monitoramento unificado da conformidade ambiental na área de produção de soja.”
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