Por André Garcia
Daqui a oito meses, empresas que não comprovarem que seus produtos são livres de desmatamento podem perder acesso ao mercado europeu. Com a proximidade do Regulamento EUDR, o Brasil avança para atender aos critérios exigidos, mas as cadeias da carne e da soja – que têm maior volume de exportação ao continente – ainda precisam superar desafios para se manterem competitivas.
É o que indica o Forest 500, relatório da organização Global Canopy publicado na terça-feira, 14/4, identificando um cenário desigual no País: enquanto a Suzano, maior produtora de celulose do mundo, obteve 81% na avaliação de suas práticas contra o desmate, a Granol, processadora brasileira de soja, ficou com apenas 4%.
“As empresas que não tomam medidas em relação à perda florestal estão demonstrando sua falta de preparo aos investidores e ao mercado como um todo”, alerta o diretor executivo da Global Canopy, Niki Mardas.
O que o ranking mede
O estudo avalia as empresas com base em nove commodities: carne bovina, cacau, café, couro, óleo de palma, celulose e papel, borracha, soja e madeira. A pontuação não reflete apenas o que as empresas prometem — 75% da nota vem de implementação, monitoramento e verificação. Os 25% restantes avaliam compromissos formais.
Entre os frigoríficos, JBS e Minerva marcam 32% e 34%, respectivamente no grupo que o relatório chama de “maioria tardia”: empresas que sinalizaram alguma intenção, mas com compromissos parciais e implementação fraca. A Marfrig aparece melhor posicionada, com 54%.
Além da Granol, a lanterna do ranking brasileiro conta com empresas de peso do agro nacional. A Bom Futuro Agrícola, um dos maiores produtores de grãos do País, ficou com 9%, e a Coamo, maior cooperativa agroindustrial da América Latina, marcou apenas 5%. Grupos como Scheffer e São Miguel tiveram 3% e 2% respectivamente.
Corrida pela rastreabilidade
Para se adequar ao EUDR, as empresas precisarão rastrear a origem dos produtos até o nível do lote de produção e apresentar declarações de diligência devida.
Entre as brasileiras, o FriGol é o único frigorífico citado nominalmente no relatório como exemplo de ação concreta nessa direção — ao aderir em 2024 ao PRIMI, Programa de Rastreabilidade Individual e Monitoramento de Fornecedores Indiretos, citando explicitamente o EUDR como motivador.
Pressão financeira
Na prática, a pressão que começa nas grandes corporações desce pela cadeia até o produtor rural, uma vez que, quem fornece para uma empresa sem compromissos ambientais está cada vez mais exposto ao mesmo risco que ela.
O Forest 500, por exemplo, recomenda que países produtores — entre eles o Brasil — limitem o financiamento público a empresas de alto risco que não reportam transparentemente suas práticas, desenvolvam sistemas nacionais de rastreabilidade e invistam em iniciativas em regiões de alto risco, como o Cerrado e a Amazônia.
“As instituições financeiras fornecem trilhões de dólares às empresas da Forest 500 e estão expostas a grandes riscos decorrentes do colapso ambiental. Elas estão em uma posição única para engajar as empresas e impulsionar ações em prol do clima e da natureza”, destaca o relatório.
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