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Etanol de milho tem boom no Brasil e setor mira em escala industrial

Etanol de milho tem boom no Brasil e setor mira em escala industrialFoto: Ceise BR

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Por André Garcia

Com produção próxima de 10 bilhões de litros no atual ano-safra e participação de cerca de um terço do mercado nacional, o etanol de milho é hoje o protagonista da matriz de biocombustíveis brasileira. Depois de oito anos crescendo acima de 30% ao ano, o desafio agora é transformar expansão industrial em mercado duradouro.

Para a próxima safra, que começa em abril, a projeção preliminar indica avanço próximo de 20%, podendo levar a produção para algo em torno de 12 bilhões de litros. Ao mesmo tempo, novas plantas seguem entrando em operação, ampliando a presença do biocombustível para além dos polos tradicionais do Centro-Oeste.

Hoje o Brasil conta com 25 biorrefinarias em operação, número que pode chegar a cerca de 33 até o fim de 2026. Há ainda aproximadamente 20 projetos em estudo. A expansão avança para o Sul e para o Matopiba, além de consolidar o protagonismo de estados como Mato Grosso e Goiás.

Momento de mercado favorece o biocombustível

A expansão ocorre em um contexto de paridade favorável ao etanol frente ao açúcar. Analistas ouvidos durante a Conferência do Açúcar de Dubai apontaram que as usinas iniciam a nova safra com incentivo econômico claro para direcionar maior volume ao biocombustível, diante dos preços internacionais deprimidos do açúcar.

A StoneX projeta que a produção combinada de etanol de cana e milho pode crescer 7,9% na safra 2026/2027, alcançando 36,5 bilhões de litros, com destaque para avanço de 17% no etanol de milho. O Rabobank estima que mais de 3 bilhões de litros de capacidade adicional de milho entrem em operação até 2026.

Nova escala abre espaço para novos mercados

Com a oferta em crescimento, o setor trabalha para ampliar o consumo interno. Hoje, o etanol hidratado tem presença mais relevante em estados produtores como São Paulo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Paraná e Minas Gerais. Em parte do Sul, Norte e Nordeste, o consumo ainda depende de maior competitividade na bomba.

A expansão industrial pode contribuir para interiorizar o consumo, reduzindo custos logísticos e estimulando a formação de novos mercados regionais. Ao mesmo tempo, surgem oportunidades de médio e longo prazo, como o uso do etanol na produção de combustível sustentável de aviação, no transporte marítimo e em mercados externos.

“Nós podemos ser grandes demais para o mercado atual no curto prazo, mas ainda muito pequenos para mercados globais como navegação e aviação. Temos um enorme potencial para crescer, mas isso precisa ser sustentável”, disse o presidente da Unem (União Nacional do Etanol de Milho), Guilherme Nolasco, em entrevista à CNN.

Em artigo publicado pela Agfeed, o especialista em biocombustíveis Clayton Melo avaliou que parte do volume incremental deve ser absorvido organicamente nos próximos oito anos por meio do crescimento da frota de veículos leves, a maioria dos quais continua flex.

“O etanol certamente fará parte da transição energética em setores como aviação e navegação marítima. Ainda assim, enfrenta obstáculos tecnológicos, barreiras não tarifárias e, o mais importante, desafios relacionados à competitividade de preços”, disse.

Maturidade e estratégia na próxima fase

Estudos do setor indicam que a produção adicional de etanol de milho pode superar 6,6 milhões de metros cúbicos nos próximos oito anos, um avanço superior a 60% sobre os níveis atuais. Para absorver esse volume, será necessário ampliar a participação do etanol hidratado no ciclo Otto, hoje em torno de 24%.

A reforma tributária, que substituirá o ICMS pelo IBS com cobrança no destino, tende a reduzir distorções históricas que afetavam a competitividade do etanol em estados não produtores. A transição será gradual, mas o novo desenho pode contribuir para um ambiente mais uniforme de concorrência com a gasolina.

“Para produtores, credores e investidores, o sucesso dependerá cada vez mais de disciplina de custos, acesso ao mercado e capacidade de operar lucrativamente através de ciclos de preços mais baixos e mais voláteis. Nesta nova fase, escala por si só não será suficiente”, concluiu Clayton.

 

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