Por André Garcia
A guerra no Oriente Médio chegou à nona semana e à medida em que o conflito evolui, a conta para o agronegócio brasileiro encarece. As projeções da consultoria Argus apontam recuo de 15% na oferta de fertilizantes no País, especialmente os fosfatados, essenciais para a produção de soja.
Em relatório divulgado nesta quarta-feira 6/5, a Argus Media destaca os impactos sobre o estreito de Ormuz, principal rota global de exportação de petróleo, gás e fertilizantes da região, que devem manter os mercados pressionados mesmo após um eventual encerramento do conflito, devido à lenta retomada das exportações.
“Quanto mais a situação atual persistir, maior será a escassez duradoura de commodities-chave nos mercados globais”, diz Simon Morris, chefe de Análises da Argus.
No mês passado, o Rabobank já havia alertado para uma redução no uso de fertilizantes no Brasil. Após um 2025 recorde, com mais de 49 milhões de toneladas entregues, a projeção é de que o volume recue para cerca de 47,2 milhões de toneladas em 2026, queda próxima de 2 milhões de toneladas em relação ao ano anterior.
Impacto nos custos do produtor
A alta nos preços deve reduzir o uso de insumos no campo brasileiro em 2026, pressionando ainda mais as margens do produtor em um cenário de custos elevados e incerteza global.
Conforme relatório da consultoria StoneX, desde o início da guerra, os preços CFR da ureia subiram cerca de 63% no país. No mesmo período, o sulfato de amônio (SAM) acumula alta próxima de 30%, enquanto o nitrato de amônio (NAM) registra valorização de aproximadamente 60%.
A disparada do preço da ureia provocou uma piora relevante nas relações de troca, especialmente para os produtores de milho, aponta o relatório. Atualmente, são necessárias cerca de 60 sacas do cereal para a compra de uma tonelada do insumo, um dos piores patamares dos últimos anos.
Dependência externa amplia vulnerabilidade
Tudo isso cria um cenário particularmente sensível para o setor. Dados da Argus indicam que, até o fim de abril, menos de 50% do volume planejado para a próxima safra havia sido adquirido, abaixo dos mais de 60% registrados no mesmo período do ano anterior. O atraso amplia riscos logísticos, sobretudo nos portos brasileiros.
A situação é agravada pela elevada dependência externa. Atualmente, o País importa cerca de 85% dos fertilizantes que consome, sendo parte relevante proveniente de regiões diretamente afetadas por conflitos ou tensões estratégicas.
Segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA), cerca de 12% dos fertilizantes importados pelo Brasil vêm do Oriente Médio, enquanto, no caso específico da ureia, aproximadamente 35% têm origem na região.
Choque pode durar mais do que o conflito
Mesmo após um cessar-fogo duradouro e uma reabertura confiável do estreito, haverá um período considerável até a normalização dos mercados. Para Morris, os meses necessários para que os navios completem suas viagens até os mercados de destino significam que os choques de oferta serão mais duradouros do que muitos imaginam.
“Outras commodities também estão sendo negociadas em níveis extremamente elevados. Ao mesmo tempo, a capacidade do Irã de atingir infraestruturas energéticas em toda a região levanta dúvidas sobre a possibilidade de os países retornarem aos níveis de produção pré-guerra mesmo após um acordo de paz”, avalia ele.
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