Por André Garcia
O mundo investe hoje muito mais na degradação ambiental do que na sua proteção. A cada US$ 100 investidos em atividades com impacto sobre a natureza, como a agricultura, energia e mineração, US$ 97 financiam sua destruição, enquanto apenas US$ 3 são destinados à conservação da biodiversidade.
Segundo relatório divulgado nesta semana pela Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), em 2023, o fluxo global de financiamento com efeitos negativos diretos foram estimados em US$ 7,3 trilhões, sendo US$ 4,9 trilhões da iniciativa privada e US$ 2,4 trilhões públicos.
Em contrapartida, apenas US$ 220 bilhões foram direcionados para atividades que contribuem para a conservação e restauração. A cifra é 32 vezes menor do que os subsídios feitos a atividades destrutivas à biodiversidade.
“A realidade distorcida é que frequentemente parece mais lucrativo degradar a biodiversidade do que protegê-la. No curto prazo isso pode parecer vantajoso, mas os impactos acumulados podem ultrapassar limites ecológicos críticos. afirmou o professor Stephen Polasky (EUA), co-presidente da avaliação.
O que as empresas podem fazer
Os atuores afirmam que todas as empresas, incluindo instituições financeiras, têm responsabilidade sobre seus impactos e sobre sua dependência da natureza e podem agir desde já, especialmente em um ambiente favorável. Muitas medidas beneficiam simultaneamente os negócios e a biodiversidade, como o aumento da eficiência e a redução de desperdícios e emissões.
“Uma relação mais responsável com a natureza não é opcional, é uma necessidade”, afirmou a professora Ximena Rueda (Colômbia), também co-presidente da avaliação. Para evitar greenwashing, ela destaca que as empresas precisam adotar estratégias transparentes e divulgar publicamente seus impactos, dependências e atividades de lobby.
O relatório analisa tanto ações diretas das empresas quanto iniciativas de influência pública capazes de estimular mudanças em outros atores, em quatro níveis de decisão: corporativo, operacional, cadeia de valor e portfólio.
Apesar da ampla base de conhecimento existente, persistem lacunas relacionadas à disponibilidade de dados relevantes, transparência, evidências e aplicação de métodos.
Mais de 100 ações para governos, finanças e sociedade civil
Uma das principais conclusões é que as empresas sozinhas não conseguem produzir a escala de mudança necessária. A colaboração entre governos, setor financeiro, sociedade civil e outros atores é essencial para criar um ambiente favorável.
Cinco componentes são considerados fundamentais para esse processo: políticas e marcos regulatórios, sistemas econômicos e financeiros, valores sociais e culturais, tecnologia e dados, e capacidade técnica e institucional. O relatório apresenta mais de 100 exemplos de ações concretas nesses campos.
“A boa gestão da biodiversidade é essencial para reduzir riscos em toda a economia”, afirmou Polasky. Segundo ele, não se trata de escolher entre desenvolvimento econômico e proteção ambiental, já que toda atividade econômica depende da natureza.
Orientação para metas globais
De acordo com David Obura, presidente do IPBES, o relatório foi produzido com urgência para apoiar governos, empresas e sociedade no cumprimento de metas globais, como o Marco Global da Biodiversidade, os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e o Acordo de Paris.
Já o secretário executivo do IPBES, Luthando Dziba, destacou que o documento reúne evidências de avaliações anteriores e oferece orientação estratégica para decisões futuras. A conservação, a restauração e o uso sustentável da biodiversidade são apresentados como elementos centrais para a sustentabilidade e o sucesso econômico de longo prazo.
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