Resumo
- O Plano Safra 2026/2027 oferece taxas de juros menores para quem investe em agroecologia e recuperação de pastagens, aplicando o incentivo tanto na agricultura familiar quanto na empresarial.
- Foram reservados R$ 200 milhões para apoiar a transição agroecológica, divididos em editais para agricultura regenerativa, florestas produtivas, agricultura urbana e apoio a programas como o Amazônia Viva.
- Na agricultura empresarial, produtores que tiverem o Cadastro Ambiental Rural (CAR) regularizado ou adotarem boas práticas podem conseguir até 1 ponto percentual de desconto nos juros de custeio, além de contarem com a linha RenovAgro para recuperar pastagens.
- No Pronaf, a linha voltada à agroecologia, orgânicos e sociobiodiversidade teve os juros de custeio reduzidos de 2% para 1% ao ano — a menor taxa de todo o programa. Os alimentos da cesta básica também tiveram queda nos juros (de 3% para 2%).
- O BNDES e cooperativas apontam forte movimentação em linhas sustentáveis. No Sicredi, por exemplo, a carteira de economia verde já atinge R$ 99 bilhões, representando mais de 30% do total da carteira da instituição.
Por André Garcia
Quem investe em agroecologia ou recupera pastagens degradadas encontra juros reduzidos nas duas frentes do Plano Safra 2026/2027. No caso da produção de base ecológica, estão as menores taxas de todo o programa. O incentivo aparece tanto na agricultura empresarial quanto na familiar, com instrumentos diferentes para cada escala.
O plano reservou R$ 200 milhões em assistência técnica para a transição agroecológica, o processo de mudança de um modelo com agroquímicos para práticas de base ecológica.
O valor está dividido em editais. São R$ 50 milhões para a transição agroecológica, R$ 48 milhões para agricultura regenerativa e florestas produtivas e R$ 8 milhões para plantas medicinais, aromáticas e sociobiodiversidade.
Outros R$ 80 milhões vão para o programa Amazônia Viva, da Conab, e R$ 20 milhões para agricultura urbana e periurbana. Há ainda R$ 20 milhões em garantia de preço para produtos da sociobiodiversidade, por meio do SocioBio+ e da PGPM-Bio.
Especialistas que acompanham o setor avaliam que as taxas ficaram competitivas. Em podcast do Sicredi sobre o Plano Safra, Carlos Cogo, consultor da COG Inteligência em Agronegócio, comentou o resultado.
“Diante de tantas restrições orçamentárias do governo federal, o plano saiu bastante interessante, principalmente se olharmos a agricultura familiar e o médio produtor: taxas muito abaixo das taxas de mercado. Reforço a importância de buscar logo a cooperativa, porque muitas linhas de investimento, como irrigação e maquinário, são sempre muito procuradas”, disse.
Duas escalas, dois caminhos
No custeio, a linha voltada à agroecologia, aos orgânicos e à sociobiodiversidade teve os juros reduzidos de 2% para 1% ao ano. É a menor taxa entre as finalidades de produção do Pronaf. Os alimentos da cesta básica, como arroz, feijão, leite, mandioca, frutas, legumes e verduras, tiveram redução de 3% para 2% ao ano.
Na agricultura familiar, a sustentabilidade aparece sobretudo no tipo de produção. Na empresarial, entra como condição de acesso a juros menores.
Para os pequenos e médios produtores, o incentivo se concentra nas taxas do Pronaf e em linhas específicas de crédito e assistência técnica. É parte de um pacote de R$ 97,3 bilhões, dos quais R$ 85,2 bilhões são de crédito do Pronaf.
A linha Pronaf Agroecologia, voltada a investimento, caiu de 3% para 2% ao ano, com prazo de até 10 anos para pagar.
Boas práticas viram desconto
Na agricultura empresarial, quem mantém o Cadastro Ambiental Rural (CAR) regularizado ou adota boas práticas pode reduzir a taxa de juros do custeio em até 1 ponto percentual. Esse lado do plano também tem uma linha específica para recuperação e conversão de pastagens degradadas, dentro do programa RenovAgro.
“Houve um aumento importante dos recursos destinados a investimentos, com destaque para modernização, irrigação, recuperação de pastagens, e a manutenção daquele viés de sustentabilidade que já tínhamos nas safras anteriores e se repetiu agora”, avaliou Gustavo Freitas, diretor executivo de crédito do Sicredi.
O que o crédito verde já movimentou
O governo apresentou os resultados acumulados das linhas sustentáveis do Pronaf nos últimos anos. O Pronaf Bioeconomia alcançou R$ 6,7 bilhões, e os recursos para agroecologia chegaram a R$ 3 bilhões. A sociobiodiversidade triplicou no período e somou R$ 1,7 bilhão. O Pronaf Floresta registrou R$ 316 milhões.
Para esta safra, o Pronaf Bioeconomia passou a ter limite de R$ 450 mil para silvicultura e sistemas agroflorestais, que combinam árvores e cultivos na mesma área.
O interesse por crédito ligado à sustentabilidade também aparece na carteira das cooperativas.
“Talvez o número mais importante seja uma carteira de economia verde de R$ 99 bilhões. De uma carteira total perto de R$ 300 bilhões, estamos falando de mais de 30%. Quase metade desse total está direcionada ao agronegócio”, pontuou Freitas.
Saiba mais:
O que é agroecologia
Agroecologia é um jeito de produzir que busca trabalhar a favor dos processos naturais, e não contra eles. Na prática, significa reduzir ou eliminar o uso de agrotóxicos e adubos químicos e substituí-los por técnicas como adubação orgânica, compostagem, rotação de culturas, consórcio de plantas e controle biológico de pragas, que usa inimigos naturais dos insetos em vez de veneno.

