O Brasil depende de fora para sustentar a própria produção agrícola e essa dependência voltou ao centro do debate com o avanço de conflitos internacionais. Hoje, cerca de 45% dos fertilizantes importados pelo País vêm de regiões com instabilidade geopolítica, como Rússia, Bielorrússia e Irã, segundo levantamento da Cogo Inteligência em Agronegócios.
O dado foi destacado em publicação do G1, que apontou os impactos da guerra entre Rússia e Ucrânia, a escalada de tensões envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel.
“O conflito entre Rússia e Ucrânia, iniciado em fevereiro de 2022, foi o teste mais severo da vulnerabilidade do agronegócio brasileiro até então. O conflito entre Israel e Irã trouxe um novo choque ao mercado”, destaca a Cogo.
Na prática, isso significa custo mais alto para produzir. Entre o início do conflito mais recente e meados de abril, o preço da ureia, principal fertilizante nitrogenado usado no país, subiu 67%, de acordo com a StoneX. Parte desse impacto ainda não chegou ao consumidor porque os insumos da safra atual foram adquiridos antes da alta, mas a tendência é de pressão nas próximas temporadas.
“A paralisação de fábricas iranianas de ureia — que produzem cerca de 9 milhões de toneladas por ano — e a interrupção do fornecimento de gás israelense ao Egito reduziram em aproximadamente 20% a oferta global de fertilizantes nitrogenados”, mostra o relatório.
Alta dependência
Em 2025, o Brasil importou 88% dos fertilizantes utilizados no campo, o equivalente a 45,5 milhões de toneladas, um recorde histórico que consolidou o país como o maior importador mundial do produto.
Essa dependência varia conforme o tipo de nutriente, mas em todos os casos permanece elevada. No potássio, por exemplo, o país produz apenas cerca de 4% do que consome. No nitrogênio, a dependência chega a 95%. Já no fósforo, apesar de reservas internas, cerca de 72% ainda vêm do exterior.
Vulnerabilidade estratégica
O histórico recente mostra que choques externos têm impacto direto sobre o custo de produção no Brasil. Em 2022, as sanções à Rússia após a invasão da Ucrânia provocaram uma disparada nos preços, parcialmente amortecida por uma safra favorecida pelo clima. Agora, com novos focos de instabilidade, o risco volta a se materializar.
No caso dos fertilizantes nitrogenados, a situação é ainda mais sensível. A produção global depende fortemente de gás natural, insumo que também sofre influência direta de conflitos e tensões energéticas. A paralisação de unidades no Irã e a interrupção do fornecimento de gás para o Egito reduziram a oferta global, pressionando ainda mais os preços.
Apesar do diagnóstico conhecido, a resposta interna avança lentamente. O país possui reservas de potássio e projetos capazes de reduzir a dependência, como a mina de Autazes, no Amazonas, mas enfrenta entraves regulatórios e ambientais. No caso do nitrogênio, o custo elevado do gás natural limita a competitividade da produção nacional.
Há sinais de retomada, como a reativação de fábricas de fertilizantes pela Petrobras, mas o movimento ainda está longe de alterar o quadro geral. Enquanto isso, o agronegócio brasileiro segue exposto a decisões e conflitos que acontecem fora do país, mas impactam diretamente o custo dentro da porteira.
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