HomeEconomia

Recuperação de áreas degradadas eleva produtividade no agro

Recuperação de áreas degradadas eleva produtividade no agroFoto: Marcio Nagano/ Imazon

Agricultura regenerativa vira gestão de risco para gigantes do setor
Alta dos custos de produção faz PIB do agronegócio encolher
Clima eleva pedidos de recuperação judicial no agro em 82,4%

Resumo

  • O agronegócio brasileiro pode se tornar um dos principais vetores da expansão das florestas nas próximas décadas ao integrar produção, conservação e restauração.
  • Grande parte da conservação ambiental já ocorre em terras privadas por meio de Reservas Legais e APPs, provando que o setor pode crescer sem destruir biomas.
  • O estudo aponta um potencial conservador de 2,6 milhões de hectares de áreas privadas (como pastagens degradadas) aptas para o restauro com espécies nativas, gerando até US$ 141 bilhões até 2050.
  • Setores modernos, como o de etanol de milho, impulsionam a silvicultura comercial (eucalipto e pinus) para suprir a demanda de biomassa e gerar energia limpa.
  • A preservação florestal traz retorno financeiro direto ao campo: a umidade da Amazônia gera precipitações avaliadas em US$ 20 bilhões por ano para a agricultura do Centro-Sul.

O agronegócio brasileiro, que já é responsável por grande área de conservação por meio de Reserva Legal, pode ser um dos principais vetores da expansão das florestas no País nas próximas décadas. Essa é uma das conclusões da segunda edição do estudo “O Protagonismo das Florestas Brasileiras na Agenda Climática Global”, que traça um panorama completo sobre conservação, restauração florestal e silvicultura no país, com recomendações sobre financiamento e políticas públicas.

O documento, que será apresentado este ano nas três Conferências das Partes da ONU (as COPs do Clima, da Biodiversidade e da Desertificação), defende que a produção agropecuária, a conservação e a expansão florestal não são agendas opostas, mas complementares.

O documento foi realizado por uma coalizão de instituições formada por Instituto Arapyaú, Instituto Itaúsa, Agroicone, Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, Instituto Clima e Sociedade (iCS), Imazon, Amazônia 2030, CEBDS e Uma Concertação para a Amazônia.

Para Rodrigo C. A. Lima, sócio-diretor da Agroicone, essa união de forças é um diferencial competitivo do País.

“O estudo mostra que conservação florestal, restauração e produção agropecuária não são agendas concorrentes. O Brasil já possui uma das maiores áreas conservadas dentro de propriedades privadas rurais e pode ampliar sua liderança global ao conectar agricultura, florestas e soluções climáticas em uma estratégia de desenvolvimento de longo prazo”, afirma Lima.

De acordo com o levantamento, além de parte importante da conservação ambiental brasileira estar dentro das propriedades rurais — por meio das áreas de Reserva Legal e das Áreas de Preservação Permanente (APPs) —, há um volume significativo de áreas privadas pouco aptas para a agricultura ou pecuária que podem ser destinadas à restauração florestal.

Historicamente, o país já provou que o avanço do campo não depende do desmate. Entre 2004 e 2012, por exemplo, o desmatamento na Amazônia caiu 80% enquanto a produção agropecuária da região praticamente dobrou.

Agora, o novo salto do agro está diretamente ligado à transição florestal em terras privadas, utilizando áreas pouco aptas para a agricultura ou pecuária — como terrenos muito inclinados ou pastagens degradadas — para a recuperação vegetal.

Um levantamento preliminar conduzido pela Agroicone em parceria com o movimento Floraz cruzou bases de dados geoespaciais e identificou, em um cenário conservador, cerca de 2,6 milhões de hectares aptos para restauração com espécies nativas, distribuídos em aproximadamente 8 mil propriedades rurais.

Além de ajudar os produtores a regularizarem passivos ambientais previstos no Código Florestal, a restauração abre as portas para o mercado de créditos de carbono. Até 2050, projeta-se que a restauração florestal possa gerar US$ 141 bilhões no Brasil em biomateriais, alimentos e bioenergia.

A sinergia entre o agro e o cultivo de florestas também ganha força com a silvicultura comercial. O forte avanço do etanol de milho no Brasil — que representou 22% da produção total de etanol na safra 2024/2025 — aumentou drasticamente a demanda por biomassa de eucalipto e pinus para a geração de energia térmica nas usinas, impulsionando o plantio dessas árvores em áreas agrícolas.

Além do retorno financeiro com madeira e carbono, a expansão florestal é uma salvaguarda para a produtividade do próprio agronegócio. As florestas regulam o ciclo hidrológico e garantem as chuvas que sustentam o campo por meio dos “rios voadores”.

Um estudo internacional publicado na revista Communications Earth & Environment, do grupo Nature, estima que a Amazônia Legal gera precipitações avaliadas em cerca de US$ 20 bilhões por ano para a agricultura brasileira.

Beto Veríssimo, cofundador do Imazon, reforça a posição estratégica que o país assume ao integrar essas frentes.

“O Brasil concentra cerca de 500 milhões de hectares de florestas nativas, domina tecnologias de conservação, restauração e silvicultura e reúne condições únicas para liderar a agenda global de soluções baseadas na natureza. Nossas florestas armazenam carbono, regulam chuvas, sustentam a produção agrícola, a geração de energia e o abastecimento de água. Quando falamos em clima, segurança alimentar e resiliência econômica, estamos falando diretamente da importância estratégica das florestas brasileiras”, pontua Veríssimo.

Com a agenda global passando a enxergar as florestas não apenas pelo carbono, mas como uma “infraestrutura natural” necessária para proteger a economia contra eventos climáticos extremos, o desafio do país passa a ser o financiamento estruturado.

“Precisamos fazer com que o capital natural e as soluções baseadas na natureza deixem de ser vistos apenas como uma agenda ambiental e passem a ocupar um lugar central na economia. As florestas brasileiras têm potencial para se consolidar como uma classe de ativos altamente atrativa para o mercado financeiro, gerando valor por meio de carbono, água, resiliência climática, biodiversidade e segurança alimentar. O desafio agora é criar mecanismos financeiros capazes de transformar esse patrimônio natural em ativos reconhecidos e valorizados globalmente”, conclui Roberto Waack, presidente do Conselho do Instituto Arapyaú.

Fonte: Imazon