Por André Garcia
O Brasil consome hoje o dobro de herbicidas que usava há quinze anos, e o glifosato, molécula que prometeu simplificar o manejo das lavouras, acabou se tornando parte do problema. Quanto mais os produtores o usaram, menos ele funcionou. E quanto menos funcionou, mais produtos precisaram comprar para substituí-lo.
De acordo com a Embrapa, em 11 anos, enquanto a área agrícola cresceu 24%, o volume de herbicidas vendidos no País saltou 128%. Quem fabrica essas moléculas substitutas, em grande parte, é o mesmo grupo de multinacionais que vendeu a promessa original.
O uso intensivo do glifosato na agricultura, que ganhou força com o plantio direto e as cultivares transgênicas, acabou gerando o efeito oposto ao desejado: a aplicação repetida do herbicida ao longo das safras criou pressão seletiva que favoreceu plantas naturalmente resistentes, que sobreviveram, se reproduziram e passaram essa resistência adiante.

Avanço das plantas daninhas nas lavouras brasileiras, como caruru roxo, tem acendido um alerta entre técnicos, cooperativas e pesquisadores. Foto: Embrapa
Hoje, o Brasil registra 20 casos confirmados de resistência ao glifosato, envolvendo 12 espécies de plantas daninhas, segundo o banco de dados internacional The International Herbicide-Resistant Weed Database. Entre as mais problemáticas estão o capim-amargoso, a buva, o caruru e o capim-pé-de-galinha.
O mercado das substitutas
Com o glifosato perdendo eficácia, os produtores passaram a buscar outras moléculas para completar o serviço, e o mercado respondeu.
O cletodim, molécula usada no controle de gramíneas, teve alta de 2.672% no período. O triclopir cresceu 953%. O haloxifope, 896%. O diclosulam, 561%. A flumioxazina, 531%. Outros produtos já consolidados no mercado também avançaram com força: o glufosinato aumentou 290% e o 2,4-D, 233%.
“Esses números apontam para uma tentativa dos agricultores de continuar utilizando o controle químico como solução única, mesmo com a perda de eficiência do glifosato no controle de algumas espécies”, afirma Robson Barizon, chefe-adjunto de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Embrapa Meio Ambiente.
Exemplo disso é que a líder mundial no mercado de agrotóxicos, a Bayer, anunciou em abril que desenvolve um novo herbicida, o icafolin-metil, previsto para estrear no Brasil em 2028. A própria multinacional admite que o produto surge para complementar o Roundup, cujo princípio ativo é o glifosato, “cada vez menos eficaz”.
Quem lucra com a resistência
Bayer, BASF e Syngenta figuram entre as principais detentoras de registro dessas moléculas no Brasil. São as mesmas empresas que, nas últimas safras, ampliaram sua presença nos fóruns de política agrícola e climática. A Bayer, por exemplo, foi patrocinadora da AgriZone na COP30, em Belém.
Elas também integram o ecossistema de financiamento da bancada ruralista via Instituto Pensar Agro (IPA), estrutura que reúne 48 entidades do agronegócio e banca as atividades da Frente Parlamentar Agropecuária (FPA).
A conta sobra para o produtor
Enquanto o mercado de herbicidas cresce, a rentabilidade de quem planta encolhe. Um estudo do Instituto Escolhas mostra que, em 1993, um agricultor precisava vender 11 sacas de soja para cobrir os custos com sementes, agrotóxicos e fertilizantes. Hoje, precisa vender 23.
O problema não é só o preço dos insumos, mas a queda na eficiência. Se antes 1 kg de agrotóxico era suficiente para produzir 23 sacas de soja, hoje a mesma quantidade resulta em apenas 7. Com os fertilizantes, a equação também piorou: em 1993, uma tonelada rendia 517 sacas; em 2023, passou a render 333.
“O produtor usa cada vez mais agrotóxicos e fertilizantes para produzir cada vez menos soja”, resume Jaqueline Ferreira, diretora de Pesquisa do Instituto.
Para Sergio Procópio, pesquisador da Embrapa, o caminho exige uma mudança de rota.
“O futuro do controle de plantas daninhas exige uma transição para uma abordagem mais equilibrada. Um sistema produtivo sustentável não pode depender exclusivamente da ferramenta química”, conclui.
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