Por André Garcia
O desmatamento na Amazônia está custando caro ao Brasil. Pelo menos US$ 4,8 bilhões por ano já foram perdidos devido à redução das chuvas geradas pela floresta, resultado da derrubada de cerca de 80 milhões de hectares nas últimas décadas. Os números fazem parte de estudo da Universidade de Leeds, no Reino Unido, e apontam a agropecuária como um dos setores mais afetados.
Publicado na revista Communications Earth & Environment, o trabalho foi realizado em parceria com a Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e quantifica, pela primeira vez , quanto as florestas tropicais geram de chuva e qual o valor econômico desse serviço ambiental.
Assim, a partir da análise de bancos de dados climáticos e de imagens de satélite, ficou constatado que a remoção da vegetação diminui a umidade na atmosfera e reduz o volume de precipitações, prejudicando a agropecuária, a geração de energia e o abastecimento de água.
Os pesquisadores citam que, apenas no Brasil, a redução das chuvas associada ao desmatamento poderia causar prejuízos de até US$ 1 bilhão por ano em um cenário de governança ambiental fraca que levaria à perda de 56% da floresta amazônica até 2050.
“Estimativas mais detalhadas dos serviços ecossistêmicos da Amazônia apontam impactos diretos sobre atividades como a produção de soja, carne bovina e energia hidrelétrica, com perdas de renda avaliadas em cerca de US$ 7,56 por hectare ao ano devido à redução das chuvas associada ao desmatamento”, explicam.
Produção de chuva
O cálculo parte da capacidade da floresta de reciclar água e gerar chuva. Cada metro quadrado de floresta tropical contribui, em média, com cerca de 240 litros anuais de precipitação nas áreas ao redor.
Na Amazônia, esse valor chega a aproximadamente 300 litros por metro quadrado. Com a perda de cobertura vegetal, a precipitação pode cair cerca de 3 milímetros por ano para cada 1% de floresta removida.
Quanto vale a água que vem da Amazônia
Utilizando uma abordagem simples que assume preço constante para a água, os pesquisadores estimaram que a geração de chuva pela floresta amazônica vale cerca de US$ 59,40 por hectare por ano. No conjunto da Amazônia Legal brasileira, esse serviço climático equivale a aproximadamente US$ 20 ± 7 bilhões anuais.
“Reconhecer o valor econômico da provisão de chuvas pelas florestas tropicais pode destravar investimentos essenciais e transformar o debate sobre políticas de pagamento pela proteção florestal”, acrescentam.
Impactos sobre agro e energia
A irregularidade das chuvas compromete diretamente a base da produção brasileira, altamente dependente da precipitação natural. Segundo o estudo, cerca de 85% da agricultura do país é de sequeiro e o setor movimenta aproximadamente US$ 150 bilhões por ano, o que torna a estabilidade do regime hídrico um fator crítico para a economia nacional.
O problema não se limita à redução do volume total de chuva. Os pesquisadores apontam mudanças na distribuição ao longo do ano, com atrasos no início da estação úmida e maior irregularidade durante o ciclo das culturas, elevando o risco de perdas especialmente nas áreas mais impactadas pelo desmatamento.
“Estados mais dependentes das chuvas originadas na Amazônia concentram cerca de US$ 61 bilhões em renda agrícola, evidenciando o peso econômico da floresta no funcionamento do sistema produtivo nacional.”
Os autores reforçam que os prejuízos associados ao desmatamento vão além do setor agropecuário. “A diminuição das chuvas decorrente do desmatamento também tem implicações para o acesso à água potável, a navegabilidade entre comunidades remotas, a produção hidrelétrica e o armazenamento de carbono”, concluem.
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