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Segurança alimentar da China passa por Amazônia e Cerrado

Segurança alimentar da China passa por Amazônia e CerradoBrasil fornece 73% da soja importada pela China. Foto: Wenderson Araujo/Trilux/CNA

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Resumo

  • O Brasil foi o principal fornecedor agrícola da China, respondendo por 73% da soja, 59% do milho, 56% da carne bovina, 43% do frango e 42% do algodão importados pelo país asiático.
  • O abastecimento chinês depende de uma produção exposta às mudanças climáticas na Amazônia e no Cerrado, com risco crescente de quebra de safra em mais da metade das fazendas na fronteira dos biomas até 2030 (alcançando 74% em 2060).
  • A China importou um recorde de 111,8 milhões de toneladas de soja em 2025 (cerca de 82 milhões vindas do Brasil), tornando suas cadeias de ração e pecuária altamente vulneráveis a eventos extremos e à governança do uso da terra.
  • A parceria bilateral foi elevada em 2024 a “comunidade de futuro compartilhado”, abrindo espaço para tratar a sustentabilidade como pilar de competitividade, segurança alimentar e adaptação climática (aliada a fóruns como BRICS e G20).
  • O Brasil já dispõe de instrumentos de rastreabilidade, como o CAR, o SISBOV e o PRODES, mas o avanço é travado por barreiras como falta de integração institucional, incentivos, transparência de dados e governança fragmentada.
  • O Brasil possui pelo menos 28 milhões de hectares de pastagens degradadas com potencial para virar lavoura, o que ampliaria em cerca de 35% a área plantada de grãos (baseada na safra 2022/23) sem desmatar vegetação nativa.
  • Entre os anos 2000 e a década seguinte, o Brasil dobrou a produção de alimentos enquanto reduziu em 83% o desmatamento na Amazônia, provando que é possível conciliar conservação e alta produtividade.
  • A China se destaca em agricultura de precisão e o Brasil em monitoramento por satélite (exemplificado pelo programa espacial CBERS). Além disso, BNDES e CEXIM criaram um fundo de até US$ 1 bilhão em 2025 focado em transição energética, infraestrutura verde e agricultura sustentável.
  • Rastreabilidade, intensificação sustentável e crédito para agricultura de baixo carbono formam uma estratégia integrada de cooperação Sul-Sul para garantir a segurança alimentar global diante da crise climática.

 

Em 2025, o Brasil foi o maior fornecedor de cinco produtos agrícolas à China: 73% da soja, 59% do milho, 56% da carne bovina, 43% do frango e 42% do algodão que os chineses compraram no exterior. O dado está em uma nota técnica sobre as relações comerciais entre os dois países, que alerta: o abastecimento chinês depende de uma produção que está exposta às mudanças do clima na Amazônia e no Cerrado.

O risco é maior justamente na fronteira entre os dois biomas. Pelas projeções do estudo, mais da metade das fazendas dessa faixa pode enfrentar risco crescente de quebra de safra até 2030, mantidas as condições climáticas atuais. Em 2060, a proporção chegaria a 74%.

A soja mostra o tamanho da dependência. A China importou um recorde de 111,8 milhões de toneladas em 2025, e cerca de 82 milhões vieram do Brasil. Por isso, segundo a nota, as cadeias chinesas de ração e de pecuária ficam mais vulneráveis a eventos climáticos extremos e à forma como o Brasil governa o uso da terra.

“Proteger a Amazônia e o Cerrado e investir em uma agricultura de baixo carbono não significa produzir menos. Significa criar condições para que o Brasil continue produzindo e para que a China tenha segurança no abastecimento”, afirma o diretor executivo do Ipam, André Guimarães.

Ele lembra que os dois países estão entre as principais economias do Sul Global e podem mostrar que produção de alimentos, desenvolvimento e conservação andam juntos.

O contexto político favorece essa conversa. Em 2024, ao completarem 50 anos de relações diplomáticas, Brasil e China elevaram a parceria ao patamar de “comunidade de futuro compartilhado”. Os dois também fazem parte do BRICS e do G20.

Segundo o estudo, esse cenário permite que a relação deixe de ser apenas a venda de commodities e passe a incluir segurança alimentar, adaptação climática, tecnologia e investimentos sustentáveis. A sustentabilidade, nesse caso, deixa de ser tema só ambiental e entra na conta da competitividade e da estabilidade do abastecimento.

A rastreabilidade e o desempenho ambiental, afirma o documento, já pesam cada vez mais no comércio agrícola entre os dois países.

Rastreabilidade e produção sem desmatamento

Ferramentas para essa transição já existem. No Brasil, o CAR (Cadastro Ambiental Rural), o SISBOV (Sistema de Identificação e Certificação Bovina e Bubalina) e o PRODES (monitoramento do desmatamento na Amazônia Legal por satélite) permitem acompanhar o uso da terra, a criação de gado e a perda de vegetação. Os dois governos também começaram a cooperar no desenvolvimento de sistemas de rastreabilidade que funcionem além das fronteiras.

Segundo a nota, o problema deixou de ser a falta de tecnologia. O que trava o avanço é a falta de integração entre instituições, de incentivos econômicos e de reconhecimento mútuo entre os sistemas.

Pesam ainda a diferença nos padrões e na transparência dos dados, a participação desigual do setor privado e a governança fragmentada.

Outra saída apontada é produzir mais em áreas que já foram abertas. O Brasil tem ao menos 28 milhões de hectares de pastagens degradadas com alto potencial para virar lavoura. Aproveitá-los ampliaria em cerca de 35% a área plantada de grãos, em relação à safra 2022/23, sem avançar sobre vegetação nativa.

O estudo lembra que o País já mostrou que é possível conciliar as duas coisas: entre os anos 2000 e a década seguinte, dobrou a produção de alimentos e reduziu em 83% o desmatamento na Amazônia. Para os autores, recuperar áreas degradadas e elevar a produtividade das terras já abertas pode atender à demanda sem repetir um modelo baseado na expansão sobre a mata.

Tecnologia e dinheiro também entram na equação

A China está entre os maiores investidores do mundo em agricultura de precisão e maquinário digital, enquanto o Brasil acumulou experiência em monitoramento do território por satélite. O CBERS, programa espacial conjunto em operação desde 1999, é um exemplo dessa parceria.

Em 2025, o BNDES e o CEXIM, banco de exportação e importação da China, criaram um fundo com meta de até US$ 1 bilhão para transição energética, infraestrutura verde, bioeconomia e agricultura no Brasil. No campo, projetos de mecanização e digitalização da agricultura familiar e de rastreabilidade indicam onde tecnologia, financiamento e produção sustentável podem se encontrar.

A nota conclui que rastreabilidade, intensificação sustentável e crédito para a agricultura de baixo carbono podem reduzir o risco de desmatamento, aumentar a resistência ao clima e dar mais estabilidade às cadeias globais de alimentos.

Brasil e China, afirma o documento, podem ainda criar juntos mecanismos de sustentabilidade pensados para países que produzem e consomem alimentos, num modelo de cooperação Sul-Sul que trate comércio, ciência, tecnologia, financiamento e conservação como partes de uma mesma estratégia de segurança alimentar diante da crise climática.