Por André Garcia
Embora cerca de 77% das propriedades rurais no Brasil sejam familiares, só 30% chegam à segunda geração, e menos de 5% alcançam a terceira, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em Querência (MT), a família Junges segue na contramão desses dados ao estruturar a sucessão como parte do negócio.
A história começou em 1988, quando Venir José Junges se estabeleceu no município e estruturou a base produtiva da propriedade. Décadas depois, os filhos Luciano Marcos e Maurício Carlos passaram a assumir responsabilidades na condução do trabalho, garantindo o futuro do negócio.
“Desde cedo, sempre tive contato com a atividade rural, incentivado pelo meu pai a participar da rotina da fazenda e a entender a importância de dar continuidade ao trabalho da família. A ideia de sair do campo ou buscar outros caminhos profissionais nunca passou pela minha cabeça”, conta Luciano.
O envolvimento nas decisões, investimentos e ciclos produtivos foi decisivo para o processo. Além disso, esse movimento mostra como driblar os principais obstáculos para a sucessão, que, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) incluem o desinteresse das novas gerações, gestão complexa e conflitos familiares.
“Entender todas as etapas da produção e saber que, a cada safra, é possível evoluir e melhorar traz motivação para continuar. Não é um trabalho com começo e fim definidos, mas um processo contínuo de busca por mais produtividade, eficiência e rentabilidade, tanto no operacional quanto na gestão”, explica Maurício.
Família Junges. Foto: Mateus Dias/Aprosoja MT
Estratégia de longo prazo
É justamente a partir desta estratégia que a família projeta a formação dos próximos sucessores. Tanto Luciano quanto Maurício são pais e defendem que a sucessão começa cedo com inserção gradual dos jovens na rotina da propriedade, exposição às decisões estratégicas e compreensão dos processos produtivos.
“Vejo um futuro longo como produtor rural e pretendo transmitir isso aos meus filhos. Acredito que a presença e o envolvimento direto são fundamentais para que as próximas gerações criem apego ao negócio. Estar junto, trabalhando em família, é o que mantém viva a vontade de seguir no campo”, pontua Mauricio.
Para eles, esse processo vai além da posse da terra: representa a transmissão de valores, de visão de futuro e de orgulho pela vida no campo.
“A sensação de ver o trabalho concluído e os resultados acontecendo não se compara a nenhuma outra profissão. Tenho orgulho de ser produtor rural, pois sei que tudo o que construímos hoje ficará como base para as próximas gerações, assim como recebi o legado de quem veio antes”, acrescenta Luciano.
Experiência como base da transição
Filho e neto de produtores rurais, Venir José Junges, pai de Luciano e Maurício é agricultor há mais de 50 anos. Após estruturar a base do negócio e conduzi-lo até a entrada dos filhos na gestão, hoje acompanha a sucessão de perto e defende que continuidade se constrói com preparo e presença.
“Sempre procurei incentivar, dizer para ir em frente, acreditar e enfrentar os desafios. Mesmo em um momento difícil, que exige coragem e resiliência, é preciso ter ambição e vontade de continuar. Aqui, ambição não falta, e a expectativa é de longevidade do negócio, com a atividade sendo passada de geração em geração”, afirma.
O processo de transição entre os Junges mostra que tradição, sozinha, não garante continuidade. É preciso planejamento e união
“Ver a família trabalhando junto é uma realização sem tamanho. Se não fosse essa união, talvez o negócio não estivesse no nível em que está hoje. A gente só continua investindo e acreditando porque a família está junta, presente e comprometida em seguir adiante”, finaliza Venir.
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