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Bioinseticida contra pragas avança para escala industrial

Bioinseticida contra pragas avança para escala industrialProcesso pode ganhar escala industrial. Foto:Embrapa

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Resumo:

  • Pesquisadores da Embrapa Meio Ambiente e da empresa Efense desenvolveram um processo que produz bioinseticida à base de fungo em biorreatores industriais de 1,2 mil litros sem perda de rendimento.
  • Os cultivos alcançaram entre 1,8 bilhão e 2,8 bilhões de unidades formadoras de colônia por mililitro em dois a quatro dias de fermentação, segundo a Embrapa.
  • Formulações com óleo vegetal e sílica amorfa preservaram a viabilidade dos fungos por até 90 dias sob refrigeração e aumentaram a virulência em relação aos blastósporos não formulados.
  • Em laboratório e casa de vegetação, a mortalidade ficou entre 70% e 93% contra lagarta-do-cartucho e ninfas de mosca-branca, na concentração de 10 milhões de blastósporos por mililitro.
  • Em duas safras de soja, 2022/23 e 2023/24, as aplicações reduziram populações de mosca-branca nas áreas experimentais; o material divulgado não informa o percentual nem a área dos ensaios.
  • Não há produto comercial derivado do processo disponível ao produtor, e a expectativa dos pesquisadores é acelerar o desenvolvimento de novos bioinseticidas.

Por André Garcia

A Embrapa, em parceria com a empresa Efense, desenvolveu um processo que pode facilitar a produção em larga escala de bioinseticidas para o controle de duas das pragas mais comuns nas lavouras brasileiras: a mosca-branca e a lagarta-do-cartucho. A novidade não está no fungo em si, mas na forma de produzi-lo — o que pode tornar esse tipo de defensivo biológico mais acessível no futuro.

A tecnologia usa blastósporos — células produzidas por fungos que conseguem infectar e matar insetos-praga. Em testes de laboratório e casa de vegetação, os bioinseticidas alcançaram entre 70% e 93% de mortalidade contra a lagarta-do-cartucho e contra ninfas de mosca-branca, usando uma concentração de 10 milhões de blastósporos por mililitro.

Os resultados também foram testados em condições reais de lavoura. Durante duas safras seguidas de soja (2022/23 e 2023/24), aplicações sucessivas do bioinseticida reduziram a população de mosca-branca nas áreas de teste — a Embrapa não detalhou o percentual exato de redução nem o tamanho das áreas avaliadas. Já o controle da lagarta-do-cartucho foi validado apenas em ambiente controlado, ainda sem teste direto no campo.

“Os ensaios compararam os novos produtos com bioinseticidas comerciais registrados no Brasil, demonstrando que as formulações à base de blastósporos apresentam elevado potencial para integrar programas de manejo integrado de pragas e ampliar as opções de controle biológico disponíveis aos agricultores”, afirmou Marcus Santana, da Efense, empresa que cofinanciou a pesquisa.

Avanço pode baratear o produto

O ponto mais importante da pesquisa não está no laboratório, mas na fábrica. Até agora, um dos maiores obstáculos para colocar bioinseticidas à base de fungos no mercado em maior escala era o custo e a dificuldade de produção industrial. A nova técnica multiplica os blastósporos por fermentação líquida — processo mais rápido, uniforme e fácil de automatizar do que a fermentação sólida usada tradicionalmente para produzir esporos de fungos.

Crédito: Embrapa

Nos testes, a produção foi escalada para biorreatores industriais de 1,2 mil litros — o tipo de estrutura usada por fábricas de defensivos biológicos — e mesmo nesse volume maior, o rendimento se manteve alto: entre 1,8 bilhão e 2,8 bilhões de células por mililitro, em fermentações de apenas dois a quatro dias.

“Foi demonstrado que é possível produzir mais de um bilhão de blastósporos por mililitro em apenas dois dias de fermentação, mantendo a qualidade biológica necessária para uso agrícola. Além disso, blastósporos em formulação oleosa apresentaram maior virulência quando comparados com não formulados, criando um efeito sinérgico no controle dos insetos-praga”, explicou Aline Lira, bolsista do projeto na Embrapa Meio Ambiente durante seu doutorado na Esalq-USP.

Fungo agora aguenta até 90 dias na geladeira

Outro entrave histórico desse tipo de produto era a conservação: os blastósporos são sensíveis à desidratação e às condições ambientais, o que dificultava guardar e transportar o produto até a lavoura. Os pesquisadores testaram formulações que misturam óleo vegetal e sílica amorfa e conseguiram manter os fungos vivos e ativos por até 90 dias sob refrigeração — sem precisar de uma etapa de secagem, que encareceria a produção em escala industrial.

O óleo trouxe um efeito extra: além de conservar melhor o fungo na prateleira, ele deixou o produto mais agressivo contra o inseto-alvo. Segundo a Embrapa, os fungos aderem rapidamente à praga e começam o processo de infecção poucas horas após a aplicação, o que acelera a morte do inseto já nos primeiros dias.

Produto ainda depende de registro

Vale um aviso importante para quem já está de olho no produto: por enquanto, não existe nenhum bioinseticida comercial derivado dessa tecnologia disponível para compra.

A pesquisa reúne mais de dez anos de estudos sobre produção de fungos que combatem insetos, e a expectativa dos pesquisadores é que essa nova forma de produção em escala industrial facilite o desenvolvimento de bioinseticidas comerciais nos próximos anos — ampliando as ferramentas de manejo integrado de pragas disponíveis ao lado do controle químico tradicional.

SAIBA MAIS

O que são blastósporos? São células que fungos entomopatogênicos — aqueles que causam doença em insetos — produzem naturalmente quando já estão dentro do corpo do inseto infectado. Diferem dos conídios, os esporos obtidos por fermentação sólida que servem de base para a maioria dos bioinseticidas fúngicos hoje no mercado. A vantagem dos blastósporos para a indústria é que podem ser multiplicados em fermentação líquida, processo mais rápido, uniforme e fácil de automatizar; a desvantagem é a sensibilidade à desidratação e a condições ambientais adversas, que reduz a validade do produto e por muito tempo limitou o uso comercial dessa rota de produção.

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