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El Niño faz agro mudar estratégias para evitar perdas

El Niño faz agro mudar estratégias para evitar perdasAposta é na correção do solo para evitar perdas semelhantes às de outros anos. Foto: Embrapa

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Resumo:

  • O El Niño foi citado em 60 teleconferências de resultados de 35 empresas de capital aberto, segundo levantamento do Capital Reset com dados da plataforma AlphaSense; mais da metade atua no campo ou em atividades ligadas ao agronegócio.
  • A SLC Agrícola, que perdeu 20% da produção no El Niño de 2015/16, aposta no solo corrigido em 100% das áreas para evitar perdas semelhantes, segundo o CEO, Aurélio Pavinato.
  • A Hidrovias do Brasil vai operar com comboios menores no Arco Norte porque a dragagem emergencial não saiu; a região respondeu por cerca de 40% das exportações brasileiras de soja e milho em 2025, segundo a Conab.
  • Para a SLC, a seca na Austrália pode reduzir a área de algodão do país para 325 mil hectares, metade do pico, cenário que a empresa considera positivo para o algodão brasileiro.
  • No El Niño de 2015/16, a sinistralidade do seguro rural subiu de 30% para 37%, segundo dados da Susep compilados pelo Bank of America; a BB Seguridade vê o maior risco em 2027.

 

Por André Garcia

A previsão de um El Niño intenso entre o fim de 2026 e o início de 2027 já está mudando as decisões de grandes empresas do agronegócio brasileiro. Para reduzir o risco de prejuízos, companhias do campo estão revendo áreas de plantio e evitando investir em lavouras mais vulneráveis à seca. Os impactos também preocupam transportadoras de grãos, frigoríficos, bancos e seguradoras.

Levantamento do Capital Reset, com dados da plataforma AlphaSense, identificou que o fenômeno foi citado em 60 teleconferências de resultados de 35 empresas de capital aberto. Mais da metade atua diretamente no campo ou em atividades ligadas ao agronegócio.

No Centro-Norte do País, incluindo o Matopiba, a previsão é de seca durante o plantio da soja. Em meados de outubro, a temperatura da superfície do Pacífico equatorial estava 3,3°C acima da média, condição associada a um episódio de intensidade muito forte.

Empresas mudam estratégias de plantio

A SLC Agrícola, que cultiva mais de 850 mil hectares de soja, milho e algodão, está entre as empresas que adotaram medidas para enfrentar o fenômeno. No El Niño de 2015/16, a companhia perdeu 20% da produção, mas economizou em insumos o equivalente a 5% dela, o que reduziu a perda efetiva para 15%.

Agora, aposta na correção do solo para evitar perdas semelhantes. A empresa possui 25 mil hectares irrigados, principalmente na Bahia, e utiliza técnicas de manejo que ajudam a conservar a umidade da terra. Segundo o CEO Aurélio Pavinato, a condição das lavouras também mudou: em 2016, mais de 20% das áreas haviam sido abertas recentemente e ainda passavam pelo processo de correção do solo.

“Hoje, 100% [das áreas] estão bem corrigidas. O sistema é muito mais resiliente”, afirmou Pavinato durante a teleconferência de resultados do segundo trimestre. Ele espera perdas menores em 2027, mesmo diante de condições climáticas semelhantes.

A BrasilAgro também modificou seu planejamento. A companhia decidiu concentrar o algodão em áreas irrigadas e substituir lavouras comerciais por plantas de cobertura em locais onde o risco climático pode comprometer a rentabilidade. Segundo o CEO André Guillaumon, na teleconferência do segundo trimestre, em áreas sem histórico de boa produtividade, “não faz sentido nenhum colocar capital do acionista” diante da previsão de um El Niño intenso.

Seca ameaça transporte de grãos de Mato Grosso

Além das lavouras, a redução das chuvas pode comprometer o escoamento da produção de Mato Grosso pelas hidrovias amazônicas, que ligam o estado aos portos do Arco Norte. A região respondeu por cerca de 40% das exportações brasileiras de soja e milho em 2025, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

A Hidrovias do Brasil vai operar com comboios menores e antecipar volumes para enfrentar a possível redução do nível dos rios, porque a dragagem emergencial no Arco Norte não saiu. Segundo o diretor financeiro André Hachem, o risco pode aumentar em 2027, caso a falta de chuvas impeça a recuperação das hidrovias, como ocorreu nas secas de 2023 e 2024.

No transporte ferroviário, a Rumo, responsável por levar grãos de Mato Grosso ao Porto de Santos, também acompanha os riscos para a safra 2026/27, mas ainda não estimou possíveis impactos.

Quebra de safra pode elevar custos e preços

Os efeitos também podem chegar à indústria. Nos frigoríficos, uma eventual quebra nas safras de milho e soja tende a encarecer a alimentação de aves e suínos. Para reduzir esse risco, a MBRF utiliza contratos que fixam antecipadamente os preços de compra dos insumos.

Na produção de açúcar e etanol, o excesso de chuvas pode prejudicar a colheita e reduzir a quantidade de açúcar na cana. O diretor financeiro da São Martinho, Felipe Vicchiato, alertou que o fenômeno pode reduzir significativamente o teor de açúcar da matéria-prima. Se as chuvas intensas se confirmarem, “esquece, não vai ter esse açúcar”, afirmou.

Por outro lado, a Jalles e a BrasilAgro citaram perdas nas safras de cana da Índia e da Tailândia, que podem diminuir a oferta mundial e elevar os preços. A SLC Agrícola considera um cenário semelhante para o algodão, já que a seca na Austrália pode reduzir a área plantada para 325 mil hectares, aproximadamente metade do pico registrado no país.

“Nesse ponto, o El Niño é positivo para nós”, avaliou Pavinato.

Saiba mais

O que é correção do solo? É o conjunto de práticas que prepara terras naturalmente ácidas e pobres em nutrientes, como as do Cerrado, para o cultivo. A principal é a calagem, aplicação de calcário para reduzir a acidez e neutralizar o alumínio tóxico às plantas. Ela costuma ser combinada à gessagem, que leva cálcio para camadas mais profundas. Com o solo corrigido, as raízes crescem mais fundo e alcançam a umidade armazenada abaixo da superfície, o que ajuda a lavoura a atravessar períodos de seca. Como o efeito se constrói ao longo de várias safras, áreas recém-abertas tendem a ser mais vulneráveis à falta de chuva.

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