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Quer restaurar áreas degradadas? Saiba como transformar passivos em ativos ambientais

Quer restaurar áreas degradadas? Saiba como transformar passivos em ativos ambientaisManejo Sustentável na fazenda Sinopema, em Tabaporã. Créditos: Francisco Alves/Cipem

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Por Vinicius Marques

No momento em que se cogita retirar o Estado de Mato Grosso da Amazônia Legal, surge a reboque o tema da recuperação de áreas degradadas como forma de aumentar a produtividade do agricultor sem abertura de novas áreas.

Segundo dados do GeoPortal TerraClass, sistema executado pela parceria entre Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) e o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), do total de áreas brasileiras desmatadas desde a década 80, 63% estão ocupadas por pecuária de baixa produtividade (mau aproveitamento da terra) e outros 23% foram abandonadas e estão regenerando. Em nosso Estado, aproximadamente 5,5 milhões de hectares estavam em processo de restauração da vegetação em junto de 2021, o que representava a recomposição de cerca de 6% do território estadual, segundo dados do governo estadual.

Para o engenheiro florestal Tasso Azevedo, em vídeo publicado pelo Observatório do Clima, a agropecuária nacional tem em mãos grande quantidade de solos degradados que, se bem aproveitados, podem aumentar a produtividade e diminuir o desmatamento no País.

Uma das maneiras que o produtor tem de reutilizar esse solo é a partir da recuperação de áreas degradadas. De acordo com Ingo Isernhagen, pesquisador em Restauração Florestal e Adequação Ambiental da Embrapa Agrossilvipastoril, há diversas técnicas que o proprietário de terra pode aplicar para regenerar áreas em  desuso.

Além disso, a restauração reflete diretamente no aumento de produtividade e lucros extras que o agropecuarista obtém. “O produtor tem um bom cardápio de opções, antes dele precisar tomar medidas intempestivas”, disse Isernhagen ao Gigante 163 em relação à busca do agricultor por expansão de terras.

“É preciso que o produtor rural perceba que ele pode atuar nas áreas em recuperação, transformando-as de passivos a ativos ambientais”, declara o pesquisador da Embrapa. “Ele contribui, inclusive, para mudar um pouco a visão que se tem do Brasil no mundo. A gente acha que não, mas isso tem influência direta no bolso do agricultor.”

Isernhagen faz parte do time da Embrapa que estuda modelos de recomposição de reserva legal em Sinop (MT). A empresa tem como objetivo mostrar formas viáveis que o proprietário tem de recuperar essas áreas. A frente de pesquisa visa educar o produtor em três pontos: fornecer a informação mínima que ele necessita para cumprir a legislação; mostrar como as reservas podem oferecer um retorno econômico e ainda promover as políticas públicas de pagamento por serviços ambientais. “A reserva legal é pautada para que ela sirva tanto para conservação, quanto para o manejo econômico, com produtos madeireiros e não madeireiros”, diz o pesquisador.

Para o projeto, foram escolhidas espécies nativas que pudessem atender aos processos de sucessão natural de maneira efetiva, como por exemplo, plantas que atraíssem animais para a dispersão de sementes, oferecessem sombra para mudas mais jovens e que apresentassem um desenvolvimento mais acelerado. Foi considerado também, para a composição da reserva, espécies que possibilitassem o retorno econômico de extrativismo. Isernhagen aponta três técnicas de recuperação de solos que se destacam no experimento.

“Os produtores precisam saber que é possível se aproveitar de reservas restauradas de maneira sustentável e lucrativa. Seja com o manejo de produtos madeireiros e não madeireiros, criação de abelhas, extração de óleos e resinas e até mesmo com o ecoturismo”, afirma Isernhagen.

Primeiramente, há o manejo com mudas e plantas consorciadas. Para esse modelo, o trabalho do agricultor tende a ser maior e os gastos aumentam.

“Quando falamos de plantio de mudas, há diversos fatores que influenciam no custo total. Mas vamos dizer que, em média, os valores estão entre R$ 8 mil a R$ 20 mil por hectare. É um espectro bem grande”, diz Isernhagen.

Há também a semeadura direta, uma técnica que, segundo o pesquisador, “já vem ganhando há mais de dez anos bastante corpo técnico.” Nesse modelo de regeneração, não há um padrão específico para a plantação das espécies, como no caso das mudas, que tendem a ser organizadas em linhas. No entanto, é um método mais barato de implantação (cerca de um terço dos gastos totais do manejo de mudas), além de, segundo o estudo, oferecer um desenvolvimento mais sadio para as espécies, que não passam pelo estresse de locomoção.

Por fim, há a técnica de regeneração natural, sendo a mais barata entre as três. Ela consiste em um certo “abandono” da área, desde que feito o controle de matocompetição, pragas e ervas.

“Até porque, se você abandona uma área que tem bastante capim, por exemplo, ela vira facilmente um barril de pólvora em épocas de seca e queimadas”, alerta o pesquisador.

Para implantar esse modelo de restauração, é necessária uma avaliação técnica do terreno, para saber se há o potencial de regeneração natural, a partir da existência de um banco de sementes ou da proximidade da área com uma floresta natural. “Tem o que chamamos de regeneração natural assistida, que é fazer a verificação, monitoramento e até mesmo manutenção de solo ao longo do tempo, observando o desenvolvimento dos indivíduos”, complementa.

“Uma técnica, no entanto, não exclui a outra”, diz Isernhagen. “Não é porque você fez o plantio de mudas que você não pode fazer a semeadura, por exemplo. Além disso, a manutenção inicial, caso o plantio e a semeadura sejam bem feitos, tende a se estender nos primeiros dois ou três anos do projeto.”

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