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Perda de 55% do Cerrado gera ‘crise estrutural’ e pode prejudicar agro

Perda de 55% do Cerrado gera ‘crise estrutural’ e pode prejudicar agroFoto: Adriano Gambarini/WWF Brasil

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Por André Garcia

O avanço da agricultura foi a principal causa da perda de mais de 55% do Cerrado nas últimas cinco décadas, segundo revisão científica publicada na revista Nature Conservation. A situação deixou de representar um quadro de pressão e se tornou uma crise estrutural, com riscos para o próprio agronegócio.

Isso porque foi constatado que grande parte da vegetação que restou encontra-se hoje altamente fragmentada, distribuída em pequenos blocos isolados, o que compromete a manutenção de processos ecológicos básicos e reduz a capacidade de resiliência do bioma.

“O Cerrado não pode mais ser visto como uma mera fronteira agrícola. É um sistema vivo, essencial para a estabilidade ambiental nacional e global. A preservação de seus ecossistemas é um pré-requisito para o enfrentamento das crises contemporâneas relacionadas ao clima, à água e à alimentação”, dizem os autores.

Perda silenciosa

A região concentra mais de 3.200 espécies de vertebrados, incluindo cerca de 2.047 espécies terrestres, das quais 340 são endêmicas, além de aproximadamente 1.200 espécies de peixes de água doce. A flora é igualmente expressiva, com cerca de 13 mil espécies de plantas vasculares, ou 27% de toda a flora brasileira.

Apesar disso, os autores alertam para um processo de perda silenciosa de biodiversidade. O ritmo de destruição dos habitats supera a capacidade científica de identificar, descrever e avaliar as espécies, especialmente entre plantas e invertebrados.

Floresta invertida

Uma das características mais singulares do Cerrado é o que os pesquisadores chamam de “floresta invertida”. Diferentemente das florestas tropicais, onde a maior parte da biomassa está acima do solo, aproximadamente 90% do carbono do Cerrado é armazenado no subsolo, em sistemas radiculares profundos e extensos.

Outro ponto central da análise é o papel do Cerrado na regulação hídrica e climática. Conhecido como a “caixa d’água do Brasil”, o bioma abriga nascentes que alimentam oito das doze principais bacias hidrográficas do País, além de importantes aquíferos subterrâneos, como Bambuí, Urucuia e Guarani.

“Suas espécies vegetais de raízes profundas não apenas capturam água de forma eficiente durante a estação seca, mas também criam caminhos para a infiltração da água da chuva durante a estação chuvosa, aumentando a recarga dos aquíferos e mantendo o fluxo de base do rio”, diz trecho do estudo.

Proteção insuficiente

Atualmente, apenas cerca de 8% do Cerrado está protegido por Unidades de Conservação, e menos de 3% conta com proteção integral. Além disso, a exigência atual de 20% de Reserva Legal, prevista no Código Florestal, não contempla a complexidade do bioma.

“Apesar de sua importância ecológica, menos de 10% do Cerrado está atualmente protegido por unidades de conservação, a maioria das quais permite algum nível de uso humano”, destacam os pesquisadores.

Embora as taxas anuais de desmatamento tenham diminuído recentemente, é importante lembrar que cada nova área desmatada aumenta a perda ambiental acumulada. Isso significa que o Cerrado continua a encolher, ainda que em ritmo mais lento. Portanto, o objetivo ideal deveria ser a eliminação completa do desmatamento.

Alcance do fogo

Outro problema são as queimadas, que provocam um processo de degradação cumulativa, afetando também a biodiversidade. A estimativa é de que pelo menos 8,6% das plantas nativas, 11,3% dos mamíferos, 5,09% dos pássaros, 5,14% dos anfíbios, 4,77% dos répteis, 2,5% dos peixes e 0,5% dos invertebrados estejam ameaçados.

Neste caso, os autores destacam que, ao tratar o Cerrado como um bioma uniforme, as políticas públicas e o discurso técnico acabam ignorando a degradação causada pelos incêndios. Essa distorção também enfraquece o combate aos incêndios criminosos, baseando-se em narrativas como “o fogo sempre esteve aqui”.

“Essas narrativas desconsideram a diferença entre incêndios naturais e antrópicos, negligenciam a vulnerabilidade dos ecossistemas mais sensíveis e eximem o ser humano da responsabilidade pela intensificação e banalização dos incêndios”, acrescentam.

 

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