Por André Garcia
Um estudo da Universidade de Leeds, no Reino Unido, estima que a chuva gerada pela vegetação da Amazônia Legal brasileira equivale a cerca de US$ 20 bilhões por ano, valor que sustenta a produção agrícola, a geração de energia e o abastecimento de água em diversas regiões do país.
Publicado na revista científica Communications Earth & Environment, do grupo Nature, o trabalho realizado em parceria com a Universidade do Estado do Amazonas indica que reconhecer esse serviço climático pode transformar políticas públicas e destravar investimentos voltados à proteção florestal.
“Estimamos que a Amazônia Legal brasileira fornece serviços de geração de chuvas no valor de US$ 19,6 ± 7 bilhões anualmente. Um relatório recente do Banco Mundial estimou o valor dos serviços de regulação hídrica na Amazônia Legal brasileira em US$ 8,7 bilhões, menos da metade da nossa estimativa”, dizem os autores.
O cálculo considera a capacidade das florestas tropicais de reciclar umidade e influenciar o regime de chuvas em larga escala. Utilizando um preço médio para a água, os pesquisadores estimaram que a geração de precipitações pela floresta amazônica vale cerca de US$ 59,40 por hectare por ano.
Fábrica de chuva
Cada metro quadrado de floresta tropical contribui, em média, com cerca de 240 litros de chuva por ano. Em escala de hectare, isso equivale a aproximadamente 2,4 milhões de litros anuais. Na Amazônia, onde o índice médio é maior, o volume pode chegar a 3 milhões de litros por hectare, o equivalente a uma piscina olímpica cheia a cada ano.
A influência da região vai muito além de suas fronteiras. A umidade liberada pela vegetação é transportada pela atmosfera e contribui para a formação de chuvas em áreas agrícolas e centros urbanos distantes do bioma.
Áreas protegidas localizadas em Mato Grosso, por exemplo, geram anualmente chuvas avaliadas em cerca de US$ 1,1 bilhão. Já as terras indígenas em toda a Amazônia Legal, que somam aproximadamente 110 milhões de hectares, contribuem com cerca de US$ 6,5 bilhões por ano por meio da geração de precipitações.
“Esse serviço opera em escalas que variam de dezenas a milhares de quilômetros. Dada a importância da chuva confiável para a agricultura tropical, reconhecer essa conexão entre florestas e precipitação pode ajudar a reduzir as tensões entre os interesses florestais e agrícolas”, acrescentam.
Chuva sustenta a economia
O estudo revela que a produção de chuva suficiente para sustentar algumas das principais culturas agrícolas exige umidade gerada por uma área florestal maior do que a ocupada pelas próprias plantações.
No caso do algodão, por exemplo, são necessários cerca de 607 litros de água por metro quadrado ao ano, volume equivalente ao produzido por aproximadamente dois metros quadrados de floresta intacta. Já a soja demanda cerca de 501 litros, o equivalente a 1,7 metro quadrado de vegetação preservada.
Custo do desmatamento
Se as chuvas geram receita, sua redução, causada pelo desmatamento, traz prejuízos. Os pesquisadores estimam que a derrubada de cerca de 80 milhões de hectares nas últimas décadas pode ter reduzido os benefícios da geração de precipitações em quase US$ 5 bilhões por ano.
A economia brasileira está particularmente vulnerável. Cerca de 85% da agricultura do país depende da chuva, e a redução das precipitações e o atraso das estações chuvosas já afetaram a produção de soja e milho em regiões com altos níveis de desmatamento.
“Estimativas mais detalhadas dos serviços ecossistêmicos da Amazônia apontam impactos diretos sobre atividades como a produção de soja, carne bovina e energia hidrelétrica, com perdas de renda avaliadas em cerca de US$ 7,56 por hectare ao ano devido à redução das chuvas associada ao desmatamento”, explicam.
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