Por André Garcia
Com alta superior a R$ 1 por litro e relatos de desabastecimento, o diesel se tornou o vilão dos custos operacionais nas lavouras brasileiras após a escalada do conflito no Oriente Médio. A ameaça antecipa um debate inevitável: a substituição das máquinas agrícolas movidas a combustíveis fósseis por equipamentos elétricos.
A troca de motores a combustão por sistemas totalmente elétricos não só é possível, como também pode melhorar os resultados no campo e reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Mas o processo de eletrificação ainda enfrenta obstáculos, especialmente quando aplicado a operações agrícolas de grande escala, como as que caracterizam o agronegócio no País.
“A implantação em larga escala continua limitada por condições operacionais adversas, ciclos de trabalho complexos e limitações na capacidade de manutenção e viabilidade econômica”, destacam os autores de um estudo publicado pela revista “Agriculture”.
Precisão e controle no campo
Motores elétricos permitem controle mais preciso e facilmente ajustável de velocidade, torque e potência, algo especialmente valioso para diferentes operações no campo. Além disso, arquiteturas de tração distribuída eliminam diferenciais mecânicos, permitindo controle independente de torque em cada roda.
“Equipamentos agrícolas elétricos podem ser facilmente conectados a sistemas de navegação por GPS, sensores de carga, dispositivos de monitoramento do solo e sistemas de comunicação sem fio”, ressalta trecho do estudo.
O problema é a demanda energética. Em testes com um trator elétrico equipado com motor de 19 kW e bateria de 21,6 kWh a autonomia em atividades de preparo do solo foi de três horas de trabalho contínuo por carga. Os resultados, divulgados na revista Scientific Reports, mostram que para sustentar um turno completo de trabalho, seria necessário uma bateria cerca de três vezes maior.
O estudo publicado na revista Agriculture reforça o diagnóstico. Os autores destacam que a adoção em larga escala ainda esbarra na baixa densidade energética das baterias e nos altos custos de produção.
“Além disso, o alto custo das baterias, a escassez de matérias-primas e os complexos processos de fabricação exacerbam desafios como longos tempos de carregamento, baixa adaptabilidade ambiental e autonomia limitada, restringindo assim a adoção generalizada de sistemas elétricos a bateria”, explicam.
Isso porque as condições de operação no campo impõem exigências diferentes das observadas em veículos urbanos. Tratores trabalham frequentemente em baixa velocidade, sob cargas elevadas e por longos períodos contínuos, o que aumenta significativamente a demanda energética.
Solução intermediária
Atividades como aração, preparo do solo, plantio mecanizado e colheita em larga escala exigem volumes de energia que ainda superam a capacidade prática das baterias disponíveis hoje. Na prática, isso ajuda a explicar por que o diesel continua sendo o principal combustível das máquinas agrícolas em todo o mundo.
Diante dessas limitações, muitos projetos de pesquisa e desenvolvimento têm se concentrado em sistemas híbridos. Nesse tipo de proposta, um motor a combustão continua presente, mas passa a funcionar principalmente como gerador de eletricidade para alimentar motores elétricos.
A redução média é de até 31% no consumo de combustível em comparação com tratores convencionais quando sistemas híbridos são utilizados. A vantagem está na possibilidade de operar o motor a combustão em faixas de maior eficiência, enquanto os motores elétricos fornecem torque adicional nas operações mais exigentes.
“No geral, o desenvolvimento futuro da Gestão Agrícola de Energia (EAM) apresenta tanto oportunidades quanto desafios significativos. Superar esses desafios será essencial para o sucesso da implementação de novas tecnologias energéticas no setor agrícola”, pontuam os pesquisadores.
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