Por André Garcia
Engana-se quem pensa que uma nova prorrogação do EUDR alivia a pressão sobre o agro brasileiro. Mesmo que o Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento perca força, a Europa tem outras formas de pressionar quem não se adaptar: taxar importações de alto risco climático, estimular europeus a comer menos carne e desenvolver sua própria soja. Medidas que, juntas, podem ser mais impactantes que o próprio regulamento.
De acordo com o levantamento Expanding the Toolkit, publicado recentemente pela Trase, qualquer caminho escolhido pela Europa coloca o agro brasileiro na mira. O Brasil responde por 18,8% do desmatamento causado pelo consumo europeu de commodities agrícolas, a maior fatia entre todos os exportadores.
“O EUDR é apenas uma das medidas disponíveis e pode ser útil e impactantemente complementado por um conjunto mais amplo de políticas ligadas à transição para a economia circular da União Europeia”, afirma Chris West, co-diretor da Trase e coautor do estudo.
Gado e soja no centro do problema
A origem da pegada brasileira é concentrada nessas duas commodities: o Brasil responde por 31,7% da pegada europeia do gado e 42,5% da soja. São também onde as políticas além do EUDR têm impacto mais expressivo.
Para o gado, o estudo modela três frentes de pressão: taxação de carne, mudanças dietéticas e desenvolvimento de proteínas alternativas e carne cultivada em laboratório na própria Europa. O EUDR sozinho, no cenário mais realista, reduz a pegada do gado em 24,1%. Com todas essas medidas combinadas, a redução chega a 91,9%.
Para a soja, o impacto é mais modesto. A medida mais direta é a taxação de carbono sobre importações, equivalente a €182 por tonelada, que sozinha resultaria em uma redução de 21,9% na pegada. No cenário de alta ambição com EUDR de baixa ambição, a redução chega a 50,3%.
Em ambos os casos, o Brasil domina o cenário: as reduções originadas do país representam 25,3% de toda a mudança de impacto no modelo combinado para o gado.
Tamanho do impacto
Quando todas as medidas são somadas, o potencial é expressivo. Políticas não relacionadas ao EUDR, aplicadas em alta ambição, já reduzem a pegada total de desmatamento europeia em 39,8%.
Combinadas com uma implementação fraca do EUDR, chegam a 60%. No melhor cenário, com todas as políticas em alta ambição, a redução alcança 85,3%. Para o agro brasileiro, isso significa que a pressão não diminui se o EUDR enfraquecer, ela simplesmente muda de forma.
“Os resultados sugerem que o EUDR será um mecanismo crítico para reduzir a pegada da UE, e a diferença entre os cenários de baixa e alta ambição ilustra claramente a importância de uma implementação robusta, apesar de todos os atrasos enfrentados pelo regulamento”, afirma West.
Para o Brasil, os números são os mais expressivos de qualquer país: no cenário que combina todas as políticas, a pegada brasileira associada ao consumo europeu cai para 25,6% do valor atual. Uma redução de 74,4% — independentemente de o EUDR ser forte ou fraco.
O que o produtor pode esperar
O EUDR funciona hoje como um filtro de entrada: quem atende acessa o mercado europeu, quem não atende fica de fora. Mas o estudo aponta que esse é apenas o primeiro nível. À medida que outras políticas entram em cena, a lógica muda: de acesso ou bloqueio para diferenciação de custo.
“Medidas para reduzir o consumo europeu de commodities reduzirão em última análise a demanda europeia — o que implica redução de renda para produtores que precisarão buscar outros mercados”, diz trecho do relatório.
Além disso, produtos com maior risco ambiental podem continuar circulando, mas com menor competitividade. “Há risco de exclusão das cadeias de suprimento europeias, forçando efetivamente os produtores a abastecer outros mercados, mudar seus sistemas de produção ou encontrar outros meios de subsistência.”
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