O acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, que entrou em vigor de forma provisória na sexta-feira, 1º/5, abre novas oportunidades para o agronegócio brasileiro, mas os impactos variam entre os setores. Mais de 5 mil produtos passam a ter tarifa zero nesta fase inicial, mas cotas, prazos de redução tarifária e exigências específicas devem definir quem avança mais rápido no mercado europeu.
Ao Globo Rural, representantes de diferentes setores do agro apontaram que entre os segmentos com maior potencial estão aqueles que já operam com presença consolidada no comércio internacional, como carnes, café e frutas. Nesses casos, a redução de tarifas tende a ampliar a competitividade, especialmente em nichos de maior valor agregado.
Na carne bovina, por exemplo, o acordo melhora as condições de acesso a um mercado que paga mais por cortes nobres. Ainda assim, o crescimento tende a ser gradual, com estimativas do setor apontando avanço próximo de 5% ao ano, limitado pelas cotas de exportação.
“O acordo Mercosul-União Europeia é positivo para a carne bovina brasileira, principalmente por melhorar as condições de acesso a um mercado que remunera melhor, com foco em cortes de maior valor agregado, como os do traseiro, já exportados para países como Itália, Espanha, Alemanha e Países Baixos”, diz o presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Roberto Perosa.
O diretor de economia e assuntos regulatórios da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), Daniel Amaral, afirma que, até então, as alíquotas sobre o óleo de soja ficavam entre 3,2% e 9,6%, a depender da finalidade do produto (uso industrial ou alimentação humana) e de seu grau de processamento (bruto ou refinado). Tanto o grão quanto o farelo já são isentos.
“Com a implementação do acordo Mercosul-União Europeia, as tarifas (que incidem sobre) o óleo de soja bruto serão zeradas, enquanto as alíquotas para os demais tipos de óleos serão reduzidas para 4%. Essa desoneração representa um avanço significativo para o acesso do produto brasileiro ao mercado europeu”, avalia.
Aumento da concorrência
No caso do café, a retirada progressiva das tarifas sobre produtos industrializados, como o café solúvel, pode ampliar a presença brasileira em um dos principais mercados consumidores do mundo. A mudança abre espaço principalmente para produtos com maior valor agregado.
Já em setores como frutas e pescados, o impacto pode ser mais direto. A eliminação de tarifas tende a aumentar a competitividade de produtos que não disputam diretamente com a produção europeia ou que chegam ao mercado em períodos de entressafra no continente.
“É uma grande janela de oportunidade a médio e longo prazo para a aquicultura nacional, abrindo novos mercados para a tilápia e para nossos peixes nativos”, resume o presidente da Peixe BR, Francisco Medeiros.
Por outro lado, na indústria de máquinas e equipamentos agrícolas, a redução de tarifas pode aumentar a entrada de produtos europeus no Brasil, elevando a concorrência e pressionando a indústria nacional, especialmente em um ambiente marcado por custos elevados e desafios estruturais.
“Se nós não melhorarmos o custo Brasil, no longo prazo a indústria nacional vai perder mercado”, analisa Pedro Estêvão Bastos, presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas (Abimaq).
Novas oportunidades em diferentes cadeias
Além dos segmentos já consolidados, o acordo também cria oportunidades pontuais em outras cadeias. Produtos como mel, couro e uvas aparecem entre os que podem ganhar espaço com a eliminação de tarifas, enquanto setores como algodão e citros tendem a ampliar participação à medida que a redução tarifária avance.
No caso das proteínas, frango e suínos passam a contar com cotas específicas, assim como a carne bovina, o que pode estimular embarques. Para o frango, o volume inicial é de 15 mil toneladas com osso e 15 mil sem osso, com expansão gradual ao longo dos próximos anos. Já a carne suína terá uma cota de 25 mil toneladas anuais com tarifa reduzida.
Cotas podem limitar expansão
Assim como na carne bovina, o etanol deve avançar dentro de limites definidos. A União Europeia criou uma cota isenta de tarifa de até 570,3 milhões de litros para uso na indústria química e outra, com redução tarifária de um terço, para até 200 mil toneladas destinadas a outros usos, como combustível.
Em cadeias como açúcar, arroz e lácteos, o efeito tende a ser mais restrito, seja por manutenção de cotas, seja pelo baixo volume atual de exportações.
Assim, entre ganhos graduais em exportação e aumento da concorrência no mercado interno, o resultado deve depender da capacidade de cada cadeia de aproveitar as novas condições comerciais e se adaptar às exigências do mercado europeu.
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