Resumo
- A NOAA aponta mais de 80% de chance de formação do El Niño após junho de 2026 e mais de 65% de probabilidade de um evento de intensidade forte ou muito forte entre outubro e dezembro.
- Isso indica risco de médio a alto para a infraestrutura de grãos, com ameaça de quebra de safra (especialmente na segunda safra de milho) e gargalos no transporte, afirma relatório do Santander divulgado pela CNN
- A região Norte é o elo mais frágil. O nível do Rio Tapajós costuma ficar 0,9 metro abaixo do normal durante o El Niño, ameaçando a navegabilidade e afetando diretamente empresas como a Hidrovias do Brasil.
- Em anos de El Niño, a possível queda na produção agrícola reduz a demanda por transporte, fazendo com que os preços dos fretes rodoviários em Mato Grosso cresçam menos.
- O cenário-base para a safra 2026/27 prevê uma produção de 100,5 milhões de toneladas de soja e milho no Mato Grosso (queda de 4%), o que pode encolher as exportações combinadas desses grãos em 11% (para 49,2 milhões de toneladas).
- Apesar dos riscos de mercado, a operadora logística Rumo é vista como relativamente protegida devido à diversificação de suas operações, controlando cerca de 44% das exportações de Mato Grosso.
- O fenômeno chega em um momento delicado, onde os produtores já enfrentam rentabilidade deprimida para a safra 2026/27 devido aos altos custos de fertilizantes e defensivos.
A probabilidade cada vez maior de um El Niño forte nos próximos meses é um ponto de atenção para agronegócio e a cadeia de logística de grãos do Brasil. O temor é que o fenômeno climático afete a produção no campo e provoque gargalos no transporte da safra, justamente em um momento de margens apertadas para o produtor.
Relatório do Santander divulgado na semana passada aponta que empresas ligadas à infraestrutura de grãos — como a Rumo e a Hidrovias do Brasil — podem enfrentar riscos relevantes caso o El Niño comprometa a produção agrícola ou interrompa o fluxo de cargas.
Segundo a análise, publicada pela CNN, o risco para o setor é de intensidade média a alta, com o impacto mais severo dependendo da combinação entre problemas climáticos na lavoura e eventuais travas nas rotas de escoamento.
A própria NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos) projeta mais de 80% de chance de formação do El Niño após junho de 2026 e uma probabilidade superior a 65% de um evento forte ou muito forte entre outubro e dezembro.
Entre os impactos mapeados estão a quebra de safra — sobretudo na segunda safra de milho —, problemas de navegabilidade nas hidrovias do Norte, perda de ritmo nos fretes rodoviários e pressão adicional sobre a rentabilidade dos produtores.
Embora o Centro-Oeste não seja historicamente a região mais castigada pelo fenômeno, os analistas ponderam que o El Niño tende a concentrar as chuvas em janelas mais curtas, o que amplia a volatilidade da produtividade agrícola na região.
Hidrovias do Norte são o ponto de maior atenção
O elo mais frágil da cadeia está na região Norte. O levantamento mostra que, em episódios de El Niño, o nível do Rio Tapajós costuma ficar, em média, cerca de 0,9 metro abaixo do considerado normal. Essa queda pode comprometer a navegação e afetar o escoamento de grãos pelo chamado Arco Norte, rota estratégica para as exportações brasileiras.
Por depender das condições de navegação na bacia amazônica, a Hidrovias do Brasil aparece como a companhia mais exposta a esse risco.
O estudo também identificou que, em anos de El Niño, os preços dos fretes rodoviários de grãos em Mato Grosso tendem a crescer menos do que em períodos neutros.
Em rotas como Sorriso–Miritituba e Sorriso–Rondonópolis, o impacto médio chega a pelo menos 10 pontos percentuais negativos na variação anual dos fretes. O movimento se explica pela lógica de oferta e demanda: quando a produção recua, cai a necessidade de transporte e, com ela, a pressão sobre os preços logísticos.
Rentabilidade do produtor segue pressionada
Aos desafios climáticos somam-se as margens já estreitas no campo. O Santander projeta que a rentabilidade das lavouras seguirá deprimida na safra 2026/27, em razão dos custos elevados com fertilizantes e defensivos agrícolas.
Nesse contexto, uma eventual perda de produtividade provocada pelo El Niño agravaria o quadro, reduzindo a geração de caixa dos agricultores e comprometendo investimentos futuros.
Exportações de Mato Grosso podem recuar
No cenário-base, Mato Grosso deve produzir cerca de 100,5 milhões de toneladas de soja e milho em 2026/27, uma queda de 4% na comparação anual. As exportações combinadas dos dois grãos poderiam recuar 11%, para aproximadamente 49,2 milhões de toneladas. A análise de sensibilidade indica que cenários de produtividade ainda menor empurrariam as exportações para patamares mais baixos, elevando os desafios de toda a cadeia logística.
Mesmo diante dos riscos, a avaliação é de que a Rumo permanece relativamente protegida graças à diversificação de suas operações. A companhia transporta boa parte dos grãos originados em Mato Grosso e responde por cerca de 44% das exportações do estado. Ainda assim, os analistas ressaltam que a combinação de quebra de safra com gargalos logísticos poderia afetar os volumes transportados e limitar o crescimento do Ebitda previsto para 2027.
SAIBA MAIS
Como o El Niño impacta o Brasil: No Brasil, os impactos do fenômeno são desiguais: tende a aumentar as chuvas na Região Sul, reduzir as precipitações no Norte e no Nordeste e elevar as temperaturas em boa parte do país. A intensidade do evento — classificada de fraca a muito forte — influencia a probabilidade desses impactos, mas não garante que eles aconteçam da mesma forma em todas as regiões.
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