Resumo
- El Niño começou oficialmente na semana passada e deve trazer chuvas irregulares e veranicos ao Centro-Oeste na safra 2026/27
- Chuvas antecipadas entre agosto e setembro podem enganar o produtor e levar a plantio precoce, com risco de perdas e replantio
- Especialistas recomendam cautela no calendário de plantio e culturas mais resistentes à seca, como o sorgo, na safrinha de milho
- Área segurada no país caiu para 3,2 milhões de hectares em 2025, deixando o produtor mais exposto no ano de maior risco
Por André Garcia
Iniciado oficialmente nesta semana, o El Niño afetará o Brasil de formas diferentes. Nas lavouras do Centro-Oeste, ele deve atrasar o início do período chuvoso e estender veranicos ao longo do ciclo 2026/27, obrigando os produtores a adotarem desde já uma postura defensiva no planejamento.
Pelo menos é essa a postura recomendada por especialistas de diferentes instituições. O professor Fábio Marin, da Esalq/USP, por exemplo, resume que este não será um ano para arriscar demais.
“É um ano de tentar preparar esse cultivo para que ele possa resistir a essa condição de chuva abaixo do esperado. Vai haver produção, só que deve ser menor do que a sequência que vem vindo de anos de recordes de safra”, disse em entrevista recente ao programa “O que diz a Ciência”, da TV USP Piracicaba.
O risco do falso começo da chuva
No webinário El Niño: Perspectivas e Impactos para a Produção Agrícola, promovido pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), o meteorologista Francisco de Assis Diniz, alertou sobre o calendário de plantio: a chuva pode aparecer em agosto e setembro, levar o produtor a plantar e depois não se manter, com outubro e novembro secos.
Foi o que ocorreu em 2023, quando o fenômeno também afetou o campo brasileiro, causando perdas e replantio em Mato Grosso, Goiás, Tocantins, Minas e Bahia. Diante disso, a orientação dos especialistas é acompanhar as previsões de curto prazo, de uma a duas semanas, antes de decidir o plantio, trabalhando sempre com plano A, B e C.
“Vai ter chuvas antecipadas enganando, e muitos agricultores achando que está começando a chuva quando na realidade não está”, explicou Diniz. “O clima é o preditor de uma produção agrícola no mundo inteiro. Se o agricultor não plantar, não vai ter safra — mas se o clima não contribuir, não vai ter boa produção”, acrescentou.
Atenção à safrinha e ao sorgo
A safrinha de milho merece atenção especial. Embora a soja deva ser afetada, a maior preocupação recai sobre o milho semeado em fevereiro de 2027, porque a chuva pode encerrar mais cedo e encurtar o ciclo. Por isso, Marin recomenda que o produtor já inclua a safrinha no planejamento, em vez de deixá-la como decisão de última hora.
“Temos opções de culturas que têm mercado, como o sorgo, por exemplo, que aguenta muito mais a seca, ou talvez partir para outros cultivos que tenham um custo de produção um pouco mais baixo e que sejam mais resilientes climaticamente”, afirmou.
A lógica é reduzir a exposição num ano em que apostar na alta produtividade é mais arriscado do que o normal. Para atravessar a safra, o professor também sugere manter reserva de caixa, lembrando que anos ruins de clima fazem parte da atividade e que os anos bons voltam.
Os limites da irrigação
Diniz também destacou que mesmo quem conta com a irrigação não passa ileso em anos de El Niño forte, uma vez que, em situações de calor intenso, o sistema chega a um limite e não dá conta sozinho da demanda das plantas.
“Quando tem um ano de El Niño assim, a própria irrigação não consegue vencer as altas temperaturas, como ocorreu na parte de noroeste de Minas, algumas áreas de Goiás e Bahia em 2023. A temperatura fica tão alta e a umidade do ar tão baixa, de 10% a 15%, que a irrigação não consegue vencer de jeito nenhum”, reforçou.
Além disso, a irrigação não depende só da água. Pesam também a energia trifásica, que falta em muitas áreas do interior do país, e a viabilidade econômica, já que, com os preços atuais de milho e soja, nem sempre o custo da estratégia se justifica.
Saiba mais
Impacto do El Niño: O El Niño é monitorado pela NOAA, agência de oceanos e atmosfera dos Estados Unidos, que atualiza a cada duas semanas a temperatura do Pacífico equatorial, região cujo aquecimento define o fenômeno. O órgão confirmou o evento em 11 de junho e estima 63% de chance de que ele seja muito forte entre novembro e janeiro, o que o colocaria entre os maiores desde 1950.
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