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Receio do El Niño forte já trava vendas da safra 2026/27 em MT

Receio do El Niño forte já trava vendas da safra 2026/27 em MTFenômeno pode impactar plantio de milho e soja em todo o Centro-Oeste. Foto: CNA

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Por André Garcia

Resumo

  • A Administração Atmosférica e Oceanográfica dos Estados Unidos (NOAA) confirmou, nesta quinta-feira, 11/6, que o El Niño  já está ativo, com tendência de se fortalecer.
  • O Imea projetou queda de 5,19% na produção de soja de Mato Grosso para 2026/27 (48,88 milhões de toneladas), atribuída diretamente ao risco de El Niño.
  • A comercialização antecipada do milho 2026/27 está travada — cerca de 5% do volume e abaixo do mesmo período do ano passado —, reflexo da incerteza climática.
  • A NOAA indica 80% de chance de El Niño já no primeiro trimestre de desenvolvimento da soja, fase decisiva para o estabelecimento das lavouras.
  • A migração do eixo produtivo para o Centro-Oeste e o Matopiba deixou o Brasil mais exposto ao fenômeno, que nessas regiões traz seca e veranicos, e não o excesso de chuva do Sul.

A Administração Atmosférica e Oceanográfica dos Estados Unidos (NOAA) confirmou, nesta quinta-feira, 11/6, que as condições para o El Niño estão formadas e o fenômeno já está ativo, com tendência de se fortalecer.

As previsões que apontam 63% de chances de as águas do Oceano Pacífico ficarem 2ºC acima do normal, configurando um evento “muito forte”,  tem gerado preocupação no setor agropecuário. O fenômeno pode alterar o regime de chuvas no Centro-Oeste, principal região produtora de grãos do País, e impactar o desenvolvimento da safra seguinte — tanto da soja quanto do milho.

Os sinais já são percebidos nas negociações. Em Mato Grosso, a comercialização antecipada do milho da safra 2026/27 está 0,82 ponto percentual abaixo do registrado no mesmo período do ano passado. A cautela dos produtores está relacionada principalmente às dúvidas em torno do comportamento climático no segundo semestre.

“Esse cenário já se reflete nas negociações da safra 2026/27, que tem cerca de 5% da produção comercializada até o momento. Esse percentual é um pouco menor do que o registrado no mesmo período da safra atual, assim como os preços, que seguem mais pressionados”, explica Milena Bezerra, analista de mercado do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (IMEA).

O milho de segunda safra,  a safrinha, é semeado logo após a colheita da soja, de modo que qualquer contratempo com a oleaginosa se transmite ao cereal plantado na sequência.

“A previsão de um El Niño mais intenso neste ano pode impactar a soja e, consequentemente, afetar a janela do milho na próxima safra”, acrescenta Milena.

Escalada de alertas

A escalada das projeções ao longo do ano ajuda a explicar a preocupação. Em nota técnica divulgada em março, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) trabalhava com 62% de chance de o El Niño se firmar entre junho e agosto, índice que subia para cerca de 80% a partir de agosto.

Segundo o instituto, a NOAA indica 80% de chance de ocorrência do El Niño já no primeiro trimestre de desenvolvimento da soja, fase decisiva para o estabelecimento das lavouras. Foi com base nessas projeções que o Imea passou a embutir o risco climático em suas estimativas para a oleaginosa.

Imea corta a projeção da soja

A consequência veio em números. Em boletim publicado em maio, o Imea projetou uma queda na produção mato-grossense de soja para a safra 2026/27, atribuída diretamente às incertezas climáticas. A área plantada, por sua vez, deve crescer pouco, apesar da cautela diante de juros altos, crédito mais restrito e da pressão de custos com insumos como diesel e fertilizantes.

“Esse contexto se traduz na projeção de rendimento médio de 62,44 sacas por hectare, uma queda de 5,43% em relação à safra anterior. Com isso, a produção foi estimada em 48,88 milhões de toneladas, um recuo de 5,19%. Ou seja, movimento diretamente influenciado pelo risco climático associado ao El Niño”, destacou o coordenador de Inteligência de Mercado do Imea, Rodrigo Silva.

Geografia do risco

Para o professor Pedro Côrtes, o histórico recente sugere que a agricultura brasileira pode estar mais exposta aos efeitos adversos do El Niño do que estava há vinte ou trinta anos. Isso porque a geografia da produção mudou.

O País saiu de cerca de 100 milhões de toneladas de grãos no início dos anos 2000 para mais de 350 milhões hoje, com boa parte desse avanço concentrada no Centro-Oeste e no Matopiba — regiões que, ao contrário do Sul, respondem ao fenômeno com atraso de chuvas, veranicos e temperaturas acima da média, e não com o excesso de precipitação que historicamente beneficiava as lavouras gaúchas.

“É evidente que nenhum evento climático explica sozinho o resultado de uma safra. Aspectos econômicos, tecnológicos, fitossanitários e logísticos também influenciam o desempenho do setor. Ainda assim, chama atenção o fato de que os dois episódios mais intensos de El Niño das últimas décadas tenham coincidido com reduções significativas na produção nacional de grãos”, disse em artigo publicado pela CNN.

Saiba mais

No Brasil, os feitos do El Niño são assimétricos: enquanto o Sul tende a registrar excesso de chuva durante os episódios, o Norte, o Nordeste e parte do Centro-Oeste enfrentam atraso no início das chuvas, veranicos mais longos e temperaturas acima da média.

Culturas como soja e milho são especialmente sensíveis à falta de água no estabelecimento das lavouras, logo após o plantio, e no enchimento dos grãos, perto da colheita. Quando o pico do fenômeno coincide com essas janelas, o risco de perda de produtividade cresce.

 

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