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Adaptação climática passa a definir custo do seguro rural

Adaptação climática passa a definir custo do seguro ruralSeguradoras ampliaram a análise nos últimos cinco anos. Foto: Mapa

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Resumo:

  • Seguradoras ampliaram os critérios e agora avaliam gestão de risco, prevenção e adaptação climática da propriedade, não só localização e histórico.
  • Entre 2022 e 2024, 67 eventos climáticos causaram R$ 184 bi em perdas, mas apenas 9% tinha seguro (Radar CNseg/EY).
  • Menos de 20% da área agrícola do país tem cobertura, e mais de 1.900 municípios são vulneráveis a extremos (Cemaden).
  • O bloqueio de R$ 461,7 mi no PSR em 2026 reduz o acesso ao seguro em meio a maior exposição climática.
  • Tecnologia e monitoramento elevam a produtividade de 10% a 20%; produtor preparado paga menos e tem melhor acesso à cobertura.

Por André Garcia

Diante de eventos climáticos mais frequentes, as seguradoras foram além da localização e do histórico de produtividade. Agora, a prevenção de perdas e a capacidade de adaptação de cada propriedade definem o preço e o acesso à cobertura. Na prática, duas fazendas vizinhas podem pagar valores muito diferentes conforme o preparo de cada uma.

É o que explica Talita Ferrari, sócia e diretora comercial da Wiz Corporate, corretora de seguros corporativos, sobre o ponto central dessa mudança.

“Hoje, duas propriedades rurais localizadas na mesma região podem apresentar níveis de exposição e risco completamente distintos. O que passou a fazer a diferença é a capacidade do produtor rural de identificar vulnerabilidades, investir em prevenção e implementar medidas de adaptação climática”, disse ela em artigo publicado nesta semana.

Os novos critérios

Segundo Talita, seguradoras e resseguradoras ampliaram a análise nos últimos cinco anos. Ganharam peso itens como gestão hídrica, irrigação, monitoramento climático, uso de tecnologia, capacidade de armazenagem, práticas de manejo, diversificação e planejamento financeiro.

A lógica é que operações mais bem preparadas sofrem menos com os extremos do clima.

“Propriedades que adotam programas estruturados de gestão de riscos apresentam maior capacidade de resiliência e menor severidade de perdas quando comparadas a operações menos preparadas”, afirma.

O preparo também aparece na produtividade. De acordo com a executiva, o uso de monitoramento climático e de agricultura de precisão tem gerado ganhos médios entre 10% e 20%, sobretudo em soja, milho e algodão, além de melhorar o uso de água e insumos.

Muita perda, pouca proteção

A adaptação ganha urgência diante do tamanho da lacuna de cobertura. Entre 2022 e 2024, o Brasil teve 67 eventos climáticos relevantes, com perdas estimadas em R$ 184 bilhões, segundo o Radar de Eventos Climáticos e de Seguros no Brasil, divulgado em 2025 pela CNseg e pela EY.

Do total de prejuízos, apenas 9% tinham proteção securitária. Hoje, estima-se que menos de 20% da área agrícola brasileira conte com algum tipo de cobertura.

O acesso ficou ainda mais restrito com o bloqueio de R$ 461,7 milhões do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) em 2026. O corte reduz a proteção num momento de maior exposição. Mais de 1.900 municípios são considerados vulneráveis a eventos extremos, segundo o Cemaden.

Um cenário mais apertado

O pano de fundo é de aperto financeiro no campo. Na safra 2025/26, o crédito rural das linhas tradicionais caiu 12%, para R$ 338,9 bilhões, a segunda queda seguida, segundo o Banco Central. Bancos e produtores estão mais cautelosos diante do endividamento e do risco climático.

A pressão tende a crescer. Institutos de meteorologia projetam um El Niño de intensidade forte a muito forte para o fim de 2026, com risco de veranicos no Centro-Oeste. Na safra 2023/24, sob o mesmo fenômeno, a soja de Mato Grosso teve quebra próxima de 15%.

Seguro dentro de uma estratégia

Nesse ambiente, Talita defende que a proteção deixe de ser tratada de forma isolada e passe a integrar o planejamento da propriedade.

“O seguro rural continua sendo fundamental para proteger o fluxo de caixa do produtor diante de perdas provocadas por eventos climáticos extremos. Mas, cada vez mais, ele precisa estar integrado a uma estratégia ampla de prevenção e mitigação de impactos. O produtor que investe em resiliência, tecnologia e planejamento tende a ter maior capacidade de recuperação e mais sustentabilidade econômica no longo prazo.”

Saiba mais

O que é o PSR?

O Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) é a principal política pública de incentivo ao seguro no campo. Por meio dele, o governo federal paga parte do prêmio pago pelo produtor à seguradora, o que torna a contratação mais barata e amplia o acesso à cobertura, sobretudo entre pequenos e médios. O tamanho do orçamento do programa influencia diretamente quantos produtores conseguem se proteger a cada safra. Por isso, o bloqueio de R$ 461,7 milhões previstos para 2026 preocupa o setor, que já convive com menos de 20% da área agrícola segurada e com eventos climáticos cada vez mais frequentes.

 

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