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Super Cria: integração e resiliência elevam lucro da pecuária

Super Cria: integração e resiliência elevam lucro da pecuáriaMatrizes e bezerros do sistema Super Cria recebem alimentação no cocho. Foto: Famato

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Resumo

  • Enquanto a recria e a engorda já são fases altamente tecnológicas, a fase de cria (da reprodução ao desmame) ainda é considerada o grande gargalo da pecuária em Mato Grosso devido ao seu caráter tradicionalmente extensivo.
  • Desenvolvido pelo Grupo Roncador na Fazenda São Pedro da Mantiqueira (SP),  O Sistema Super Cria inverte a lógica tradicional ao concentrar as matrizes em áreas menores e fornecer o alimento diretamente no cocho.
  • Ao liberar espaço físico antes usado para pastagem, o sistema permite a integração com a agricultura. A lavoura fornece alimento para o gado e, nos períodos de seca, a forragem excedente armazenada garante a nutrição do rebanho, reduzindo a dependência do clima.
  • O sistema registrou, na safra 2024/2025, um lucro líquido de R$ 3.482 por hectare, contra apenas R$ 115 por hectare da cria tradicional (um ganho de até 30 vezes).
  • Maior produtor de grãos do país, Mato Grosso tem grande potencial para o sistema, aproveitando áreas pós-colheita de soja para plantar gramíneas de alto rendimento voltadas à alimentação das matrizes.

Por André Garcia

Enquanto a recria e a engorda já avançaram em tecnologia, nutrição e gestão, a cria — fase que vai da reprodução das matrizes ao desmame do bezerro — ainda patina na pecuária de Mato Grosso. Mas um sistema baseado na integração, eficiência alimentar e resiliência climática pode mudar esse cenário e aumentar em até 30 vezes o lucro por hectare em relação à cria tradicional.

Desenvolvida pelo Grupo Roncador na Fazenda São Pedro da Mantiqueira, em Pindamonhangaba (SP), a Super Cria se tornou referência em tecnologia poupa-terra e alta produtividade. Não à toa, uma comitiva de produtores e pesquisadores mato-grossenses busca na propriedade soluções para a cadeia da carne do estado.

“Já conseguimos intensificar a recria e a engorda, mas eu nunca tinha visto intensificar a cria, que é o grande gargalo da pecuária de corte. Viemos entender o que está acontecendo e tentar replicar isso em Mato Grosso”, explica Normando Corral, membro do Comitê Assessor Externo da Embrapa Agrossilvipastoril.

Na semana passada, ele participou de visita técnica à fazenda, organizada pela Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato).

Como funciona

Criado por Pelerson Penido Dalla Vecchia, o Peleco, a Super Cria inverte a lógica da pecuária extensiva. Em vez de as matrizes percorrerem grandes áreas para se alimentar, a forragem é produzida, conservada e fornecida no cocho.

O modelo combina ainda silagem e pré-secado, suplementação, seleção reprodutiva, controle de custos e integração com a agricultura. A concentração dos animais em uma área menor libera outras parcelas da propriedade para a lavoura, que fornece parte do alimento utilizado pela pecuária.

No sistema de Super Cria, alimentação é garantida no cocho. Foto: Famato

A produção de alimento conservado também reduz a dependência exclusiva do pastejo: nos períodos favoráveis, a forragem excedente pode ser armazenada para sustentar o rebanho durante secas ou atrasos no início das chuvas.

“O sistema envolve todo o processo de produção, com uma visão econômica, social e ambiental. É importante ver essa integração aplicada em escala, porque podemos aprender, levar o conhecimento para Mato Grosso e avaliar o que é possível replicar”, avalia Flávio Wruck, chefe-adjunto de Transferência de Tecnologia da Embrapa Agrossilvipastoril.

Resultados na ponta do lápis

Diretor-presidente do Grupo Roncador, Peleco também chama a atenção para o acompanhamento rigoroso dos resultados. Em todo o processo são monitorados os dados de produção de forragem, consumo, taxa de prenhez, desempenho dos bezerros e custos, o que permite comparar lotes, identificar falhas e ajustar o manejo.

“Sem medir, não temos nada. A gente mede muito e aplica rapidamente o que dá certo. A única forma de tomar uma decisão assertiva é trabalhar com indicadores. Nada aqui vem do achismo”, pontuou.

Os resultados desse trabalho são expressivos. Segundo o Instituto Inttegra, consultoria de gestão que acompanha a fazenda, na safra 2024/2025 o sistema registrou lucro líquido de R$ 3.482 por hectare, ante média de R$ 115 da cria tradicional.

Próximos passos

No centro deste processo está a integração, estratégia que encontra o caminho aberto para avançar em Mato Grosso, maior produtor de grãos do País. Depois da colheita antecipada da soja, as mesmas áreas podem ser semeadas com gramíneas de alto rendimento, transformadas em silagem ou pré-secado para alimentar as matrizes no cocho.

Ainda assim, os pesquisadores ponderam que o modelo paulista não deve ser copiado, e sim adaptado.

“A ideia é validar o que foi aprendido, tanto no campo experimental quanto em uma propriedade rural. Precisamos fazer ajustes de clima, topografia e alimentação para depois buscar escala”, explica Laurimar Gonçalves Vendrúsculo, pesquisadora e chefe-geral da Embrapa Agrossilvipastoril de Sinop.

De acordo com a Famato, a próxima etapa deverá incluir o aprofundamento das informações reunidas e a discussão sobre possíveis unidades de validação. A expectativa é conectar propriedades, pesquisadores e técnicos para testar componentes do sistema em diferentes ambientes de Mato Grosso.

Saiba mais

O que é a fase de cria – Na pecuária de corte, a produção se divide em três fases. A cria vai da reprodução das matrizes até o desmame do bezerro, por volta dos sete a oito meses. Em seguida vem a recria, quando o animal cresce até atingir o peso ideal para a engorda, a etapa final, que o prepara para o abate. A cria é historicamente a fase de menor produtividade por hectare e mais dependente do pasto, o que a torna o principal gargalo da cadeia — e o alvo de sistemas de intensificação como o Super Cria.

 

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