Resumo:
- A restauração do Cerrado pode recuperar o investimento em 9,5 a 12 anos com a venda de créditos de carbono, segundo estudo da Universidade de Brasília (UnB) que avaliou as quatro unidades federativas do Centro-Oeste.
- No cenário considerado favorável pelos pesquisadores, com crédito a R$ 220 por tonelada de CO₂ equivalente, o custo médio do sequestro fica entre R$ 70 e R$ 88 por tonelada, e o valor de venda pode chegar a até três vezes esse custo.
- Cada hectare restaurado pode sequestrar cerca de 336 toneladas de CO₂ equivalente em 30 anos, já descontada margem de segurança de 20%, segundo o estudo.
- Elevar a restauração de 10% para 50% da área desmatada multiplicaria receitas e benefícios climáticos sem alterar substancialmente os indicadores por tonelada, aponta a pesquisa.
- Em Mato Grosso, o programa Todos pelo Araguaia, da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema), obteve investimentos internacionais para recuperar mais de 3 mil hectares e incluiu o carbono gerado pela restauração em sua estratégia.
Por André Garcia
A restauração do Cerrado pode recuperar o investimento em um período de 9,5 a 12 anos com a geração e venda de créditos de carbono, segundo estudo da Universidade de Brasília (UnB). Em um cenário considerado favorável pelos pesquisadores, o valor de venda desses créditos pode chegar a até três vezes o custo estimado para gerá-los.
Divulgada pela UnB na semana passada, a pesquisa considera um crédito de carbono a R$ 220 por tonelada de CO₂ equivalente, uma capacidade de captura de 14 toneladas por hectare ao ano e um horizonte de 30 anos. Pelas projeções, o custo médio do sequestro de carbono varia entre R$ 70 e R$ 88 por tonelada, e o retorno do investimento é calculado pelo payback simples.
Liderado pela professora Fátima de Souza Freire, do Departamento de Ciências Contábeis e Atuariais da UnB, o estudo avaliou cenários nas quatro unidades federativas do Centro-Oeste. A análise reúne dados de desmatamento e de gastos públicos realizados para combatê-lo entre 2001 e 2024.
“O Cerrado tem potencial econômico e climático. Precisamos agora construir a capacidade institucional para transformar esse potencial em hectares efetivamente restaurados”, afirmou ela.
Nesse horizonte de 30 anos, cada hectare restaurado pode sequestrar cerca de 336 toneladas de CO₂ equivalente, já considerando uma margem de segurança de 20% para possíveis perdas de permanência do carbono sequestrado.
O estudo contextualiza a economia de carbono, que atribui preço à emissão de gases de efeito estufa. O valor dos créditos tem como referência o dióxido de carbono (CO₂) e considera os custos sociais e ambientais das emissões. Entre os principais compradores estão empresas de setores poluentes, corporações globais com compromissos climáticos e governos nacionais.
Escala multiplica receita sem mudar custo
A pesquisa também simulou diferentes níveis de restauração. Segundo o estudo, elevar a restauração de 10% para 50% da área desmatada multiplicaria as receitas e os benefícios climáticos sem alterar substancialmente os indicadores por tonelada de carbono. Os resultados mostram o potencial econômico e climático da recuperação do bioma.
Intitulado “Quanto Custa Restaurar o Cerrado? Uma Avaliação de Viabilidade e Impacto Climático”, o estudo foi desenvolvido por Fátima de Souza Freire e Francielle Voltarelli e ficou em segundo lugar no IX Prêmio Serviço Florestal Brasileiro em Estudos de Economia e Mercado Florestal, concedido em 2025.
Para Fátima, o reconhecimento mostra que questões ambientais podem ser analisadas do ponto de vista econômico.
“A pesquisa mostra que padrões científicos, transparência dos dados e formação de capacidades podem reduzir incertezas e ajudar a transformar o potencial econômico do Cerrado em restauração efetiva”, concluiu.
Restauração já atrai financiamento
Em Mato Grosso, o programa Todos pelo Araguaia, da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema), atua em 12 municípios da Bacia do Alto Araguaia e reúne poder público, iniciativa privada e produtores rurais. Em 2025, o governo estadual obteve investimentos internacionais para recuperar mais de 3 mil hectares de áreas degradadas, e o carbono gerado pela restauração passou a integrar a estratégia do programa, como mostrou o Gigante 163.
No mesmo ano, a Sema fechou acordo com o banco alemão de desenvolvimento KfW para restaurar 420 hectares dentro do programa. A previsão da secretaria é concluir até dezembro três lotes de execução, com cerca de 1.000 hectares recuperados.
Nesta semana, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) destinou R$ 180 milhões do Fundo Clima à concessionária Triunfo do Xingu Restauração Ecológica S.A., que vai recuperar 10.346 hectares na APA Triunfo do Xingu, entre Altamira (PA) e São Félix do Xingu (MT).
O investimento total é de cerca de R$ 257 milhões, e o financiamento pode cobrir até 80% dos investimentos nos primeiros anos de implantação. A concessão tem prazo de 40 anos, período em que a restauração deve remover cerca de 4,3 milhões de toneladas de CO₂ equivalente, segundo o BNDES.
Saiba mais
Mercado de carbono – É um sistema em que créditos associados à redução ou remoção de gases de efeito estufa podem ser comercializados. Em geral, um crédito de carbono representa uma tonelada de dióxido de carbono equivalente (CO₂e) que deixou de ser emitida ou foi removida da atmosfera. Projetos de restauração podem gerar créditos ao capturar e armazenar carbono na vegetação, desde que atendam aos critérios e metodologias aplicáveis.
LEIA MAIS:
Restauração de vegetação nativa dá salto de 158% no Brasil
COP30: Restauração florestal ganha seguro no Brasil
Restauração é chave para garantir saúde dos rios do Pantanal
Restauração da Amazônia terá R$ 79 milhões para sete estados
Floresta Viva terá R$ 100 milhões para restauração de biomas
Restauração florestal atrai investimento internacional para MT

