HomeEcologiaProdutividade

Destaque nacional: fazenda de MT transforma boas práticas em negócio

Destaque nacional: fazenda de MT transforma boas práticas em negócioTecnologia, preservação e gestão integrada garantem bons resultados. Foto: Divulgação

Rentável, agricultura regenerativa precisa de capital para escalar
Conheça 10 estratégias para lidar com alta de doenças nas lavouras
Agroecologia já beneficia agricultores em Mato Grosso

Resumo:

  • A Fazenda Horizontina, em Ipiranga do Norte (MT), sedia nesta quinta-feira, 17/9, a Abertura Nacional do Plantio da Soja 2026/27, do Projeto Soja Brasil
  • Parte do milho safrinha é semeada em consórcio com braquiária, e os animais entram em recria sobre esse pasto depois da colheita do grão, o que a fazenda trata como uma terceira safra no mesmo hectare.
  • Fernando Pozzobon, CEO da Fermap, afirma ao Gigante 163 que o solo rico em matéria orgânica retém mais água e protege a fazenda contra quebras de safra em anos de seca.
  • O mapeamento do solo e a aplicação de fertilizantes e defensivos em taxa variável direcionam os insumos por trecho da lavoura, com telemetria nas máquinas e imagens de NDVI no acompanhamento das áreas.
  • Pozzobon avalia que os compradores ainda remuneram pouco as práticas sustentáveis e que o crédito verde no país segue restrito, com o retorno aparecendo na eficiência dentro da porteira.

 

Por André Garcia

A Fazenda Horizontina, em Ipiranga do Norte (MT), sedia nesta quinta-feira, 17/9, a Abertura Nacional do Plantio da Soja 2026/27 e lança holofotes sobre uma operação que combina agricultura regenerativa e de precisão, agroindústria e economia circular com produtividade média acima de 65 sacas por hectare.

O evento faz parte do Projeto Soja Brasil e tem como tema a verticalização da soja na produção de alimentos e energia, como na propriedade da família Pozzobon. Lá, soja, milho e algodão convivem com armazéns, usina de etanol, algodoeira, fábrica de ração e confinamento dentro da própria área.

“A sustentabilidade ambiental caminha de mãos dadas com a sustentabilidade financeira. Baseamos o negócio na agricultura regenerativa e na economia circular, agregando valor a tudo o que produzimos no campo”, explica Fernando Pozzobon, em entrevista ao Gigante 163.

Ele também é CEO da Fermap, empresa da família sediada em Sorriso (MT), que garante a economia circular da porteira para dentro: os subprodutos da usina de etanol e da algodoeira vão para o cocho do confinamento, e os dejetos dos animais voltam à lavoura como composto e fertirrigação.

Propriedade abriga armazéns, usina de etanol, algodoeira, e fábrica de ração – Foto: Divulgação

Proteção do solo vira “terceira safra”

Segundo Pozzobon, o ciclo começa na terra. Depois da colheita da soja, parte do milho safrinha é semeada em consórcio com braquiária. Colhido o milho, os animais entram em recria sobre esse pasto, que funciona como uma “terceira safra” no mesmo hectare e ainda protege e estrutura o solo.

A cobertura na entressafra eleva a matéria orgânica, e com ela a capacidade de reter água. Em anos de veranico ou de chuva mal distribuída, como previsto para esta safra, influenciada pelo El Niño, essa reserva é o que mantém a lavoura em pé até a próxima precipitação.

“Um solo tratado com agricultura regenerativa, rico em matéria orgânica, retém muito mais água e protege a fazenda contra quebras de safra em anos de seca”, diz. “É um investimento que traz retorno financeiro no longo prazo e protege o negócio.”

Os efeitos do manejo também aparecem gradualmente no equilíbrio de pragas e nos custos da produção. “O restabelecimento da microbiota e o aumento da matéria orgânica garantem a estabilidade do potencial produtivo ao mesmo tempo em que possibilitam uma pequena redução de custos”, acrescenta.

Tecnologia poupa área e corta gastos

Para evitar o desperdício, o mapeamento do solo e a aplicação de fertilizantes e defensivos em taxa variável direcionam os insumos conforme a necessidade de cada área. Além disso, a telemetria nas máquinas e as imagens de NDVI acompanham o desenvolvimento das lavouras e identificam diferenças dentro dos talhões.

“A tecnologia desmistifica aquela ideia antiga de que para produzir mais é preciso abrir novas áreas. Esse manejo inteligente do solo e a alta tecnologia no campo aumentam a nossa produtividade por hectare e, ao mesmo tempo, potencializam a capacidade que a lavoura tem de reter matéria orgânica e carbono na terra”, ressalta Fernando.

Preservação de nascentes entra na conta

A preservação das nascentes, matas ciliares, Áreas de Preservação Permanente (APPs) e Reservas Legais também faz parte da estratégia. A vegetação nativa em torno de nascentes e cursos d’água segura o solo nas margens, reduz o assoreamento e ajuda a manter a vazão ao longo do ano, o que sustenta o abastecimento usado na propriedade.

“Nós encaramos a preservação das APPs e Reservas Legais como um ativo vivo da propriedade. Protegemos rigorosamente as nascentes e as matas ciliares porque entendemos que a segurança hídrica da nossa produção depende diretamente da saúde da floresta nativa”, conta.

Eficiência paga melhor que o mercado

Esse conjunto também abriu caminho para certificações ambientais, que ajudam no acesso a mercados mais exigentes. Para Pozzobon, contudo, os compradores ainda remuneram pouco esse diferencial e o crédito verde disponível no país segue restrito e de difícil acesso.

Nesse cenário, o retorno das boas práticas adotadas é mais evidente na eficiência e na redução de custo dentro da porteira, seja no solo que segura água na seca, seja na área que produz três vezes no mesmo ano.

“Onde realmente vemos o valor retornar hoje é na nossa eficiência interna e na redução de custos que a nossa economia circular proporciona. O mercado já exige a sustentabilidade como um pré-requisito para comprar, mas ainda precisa evoluir muito para facilitar o crédito e pagar o preço justo pelo valor que o produtor entrega na ponta”, conclui.

Saiba mais

O que é NDVI? É o Índice de Vegetação por Diferença Normalizada, um cálculo feito a partir de imagens de satélite ou de drone que mede o vigor da vegetação. A planta saudável reflete muito a luz infravermelha e absorve a vermelha, e o índice compara essas duas faixas para gerar um valor entre -1 e 1: quanto mais alto, maior a densidade e o vigor da lavoura. Na prática, o produtor recebe um mapa colorido do talhão que mostra onde a planta está bem e onde há falha, estresse hídrico, deficiência nutricional ou ataque de praga, muitas vezes antes de o problema ficar visível a olho nu. Esses mapas são a base para aplicar insumos em taxa variável, ajustando a dose a cada trecho da área.

 

LEIA MAIS:

Projeto identifica 105 mil nascentes preservadas por produtores

Produtores apostam em recuperação de nascentes para enfrentar seca

Embrapa apresenta 163 medidas para gestão de riscos climáticos

Gestão digital do rebanho vira ativo financeiro na pecuária

Agricultura regenerativa vira gestão de risco para gigantes do setor

Produtora de MS aposta em gestão para ganhar eficiência

Boas práticas rendem soja recorde e renda extra em GO