Resumo:
- 96% das empresas com programas de agricultura regenerativa apontam as mudanças climáticas como risco financeiro ao negócio; a água aparece em segundo lugar, com 68%.
- Empresas de proteína animal podem ter aumento de custos de quase 40% até 2030 em cenário de aquecimento acima de 2°C, segundo o Climate Risk Tool da FAIRR.
- A saúde do solo é citada como resultado desejado por 76% das companhias, mas reconhecida como risco financeiro por apenas 6%.
- A adoção de sistemas de medição saltou de 16% para 54% entre 2023 e 2026, enquanto as metas quantitativas caíram de 35% para 28%.
- Apenas 4% das empresas fixaram metas baseadas em resultado, como redução de emissões ou economia de água.
Por André Garcia
Para além de compromissos ambientais, a agricultura regenerativa se tornou estratégia de gestão de risco para gigantes do setor de alimentos, como Nestlé, Carrefour, General Mills e PepsiCo. Segundo relatório da FAIRR Initiative, rede internacional de investidores, 96% das companhias que mantêm programas de regeneração apontam as mudanças climáticas como risco aos negócios.
Não faltam motivos para essa preocupação. Pelo Climate Risk Tool, ferramenta da própria FAIRR que estima a exposição aos impactos climáticos, empresas do setor de proteína animal podem ver seus custos aumentarem quase 40% até 2030 e cerca de 60% até 2050 em um cenário de aquecimento superior a 2°C.
“O desafio já não se limita a reduzir impactos negativos, mas a garantir resiliência de longo prazo e viabilidade operacional em um ambiente cada vez mais imprevisível”, diz trecho do relatório.
Depois do clima, a água
No total, o estudo avaliou 78 empresas globais dos setores de alimentos e agronegócio, responsáveis por receitas anuais de US$ 3,3 trilhões. A disponibilidade de água é o segundo fator mais citado: 68% das companhias a classificam como risco financeiramente relevante.
Os números refletem um contexto de maior exposição a secas prolongadas, enchentes, ondas de calor e irregularidade das chuvas, que já comprometem a produtividade e os custos nas cadeias de abastecimento.
Os custos de não agir são altos: o sistema alimentar global gera hoje cerca de US$ 12 trilhões anuais em danos ambientais, sanitários e de desenvolvimento. Já a oportunidade associada à agricultura produtiva e regenerativa pode chegar a US$ 1,4 trilhão até 2030, segundo o Fórum Econômico Mundial.
Solo ainda é subestimado
A FAIRR também avaliou como os temas priorizados pelas empresas entram no cálculo de riscos à produtividade, custos e receitas. A biodiversidade é reconhecida como risco financeiro por 42% das companhias; a redução de agroquímicos, por 12%; e a saúde do solo, por apenas 6%.
Em contrapartida, 76% delas citam o solo entre os resultados que pretendem alcançar. A renda dos produtores é considerada material por apenas três das 50 empresas analisadas, ainda que 40% declarem oferecer algum apoio financeiro a agricultores.
“Na melhor das hipóteses, as empresas esperam que essa abordagem entregue resultados positivos adicionais; na pior, estão superestimando seu compromisso com a agricultura regenerativa”, aponta a iniciativa.
Monitoramento cresceu, mas metas encolheram
Também foram constatados avanços na mensuração. Em 2026, 54% das empresas dizem medir resultados ou operar sistemas de monitoramento, reporte e verificação (MRV), contra 16% em 2023. Por outro lado, apenas 4% fixaram metas baseadas em resultado, como redução de emissões, economia de água ou corte de pesticidas.
As metas quantitativas em geral caíram de 35% para 28% no período, e seguem concentradas em área plantada e volume de ingredientes, não em impacto.
A qualidade do que se mede também varia, principalmente porque a maioria das empresas reporta projetos isolados, não números consolidados. A PepsiCo é exceção ao divulgar 1,9 milhão de toneladas de CO₂ sequestradas e 1,4 milhão reduzidas desde 2022 em nível corporativo.
“Ambição, por si só, não basta. Se a agricultura regenerativa pretende alcançar esses resultados, sua credibilidade, implementação e limites precisam ser discutidos de forma transparente por empresas e investidores”, reforça a FAIRR.
Saiba mais
O que é agricultura regenerativa – É um conjunto de práticas que busca recuperar a capacidade produtiva do solo e dos ecossistemas agrícolas, em vez de apenas reduzir os danos causados pelo cultivo convencional. Entre as técnicas mais adotadas estão as plantas de cobertura, usadas entre safras para proteger e enriquecer o solo, o plantio direto ou com revolvimento mínimo da terra, a rotação de culturas, o uso de compostos e biofertilizantes no lugar de insumos sintéticos e a integração de árvores e animais às áreas de lavoura.
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