Resumo:
- Na Fazenda Anacã, em Alta Floresta (MT), o turismo de observação de vida silvestre emprega oito pessoas, onde a pecuária exigia um funcionário.
- A fazenda cercou as áreas de preservação permanente (APPs), subdividiu os pastos e arrendou 12 hectares (ha) a uma usina solar; a Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), criada em 2024, foi viabilizada pela receita do turismo, segundo Prado.
- A Anacã é um dos sete locais da Rota dos Primatas de Mato Grosso, onde é possível observar 15 das 29 espécies de macacos do estado, 10 delas ameaçadas, segundo a Proteção Animal Mundial.
- A renda das propriedades da rota vem da entrada paga pelo turista, da contratação de condutores locais, de alimentação e de artesanato, afirmou ao Gigante 163 Rodrigo Gerhardt, gerente de vida silvestre da Proteção Animal Mundial.
- Para integrar a rota, a propriedade precisa manter pesquisa científica em andamento, guias orientados e boas práticas de observação, como não alimentar os animais.
Por André Garcia
Conservar a vegetação nativa, diversificar a renda sem abrir novas áreas e transformar a fauna da fazenda em produto turístico. É assim que propriedades rurais do norte de Mato Grosso, como a Fazenda Anacã, em Alta Floresta, estão usando a observação de vida silvestre como fonte complementar de renda.
A propriedade é um dos sete locais da Rota dos Primatas de Mato Grosso, que permite observar 15 das 29 espécies de macacos do estado. Lá, a combinação de turismo e pecuária permitiu ampliar a equipe, recuperar áreas de preservação e financiar a criação de uma reserva particular.
“O turismo distribui muito mais a renda. Para tocar a pecuária aqui, um único funcionário bastava. Hoje nós temos oito com o turismo. Então a gente tem uma distribuição muito melhor”, contou Fernão Prado, que administra a fazenda, em live realizada recentemente pela Frente Empresarial para a Regeneração da Agricultura (Fera).
A avaliação é compartilhada por Rodrigo Gerhardt, gerente de vida silvestre da Proteção Animal Mundial, uma das organizações que apoiam a Rota. Em entrevista ao Gigante 163, ele explicou como a iniciativa leva renda a quem conserva o habitat dos primatas na propriedade.
“A observação de primatas se torna uma fonte de renda para famílias que se comprometem a ter um programa de conservação, seja porque o turista paga a entrada, contrata o condutor local especializado na observação de fauna, como também consome alimentos e bebidas e até mesmo o artesanato e lembranças regionais”, afirmou.
Manejo do pasto abre espaço para o turismo
Na Anacã, a integração começou pela regularização ambiental. Quando Prado chegou a Alta Floresta, em 2014, a propriedade da família era improdutiva e tinha áreas de preservação permanente (APPs) degradadas. A primeira obra foi cercar essas áreas. Em seguida, os pastos foram subdivididos, o que elevou a produtividade da pecuária.
“Essa integração com a pecuária não foi uma escolha. Foi a opção que tinha, por ser uma atividade muito forte economicamente aqui”, contou ele.
Como o gado perdeu acesso aos cursos d’água, a fazenda instalou bombeamento movido a energia solar: a água vai para um reservatório e desce por gravidade até os pastos, melhorando o desempenho do rebanho.
Ao mesmo tempo, as trilhas usadas pelos turistas passam pelas APPs e funcionam como aceiros, faixas sem vegetação que interrompem o avanço do fogo. Com o gado fora dessas áreas, os grupos circulam sem abrir nenhuma porteira além da entrada da fazenda.
“O turismo, além de trazer a parte econômica, estrutura a propriedade para fazer educação ambiental. Você cria um ecossistema que entrega muito mais para a comunidade local, tanto economicamente como socialmente e ambientalmente”, relata Fernão.
Diversificação da receita
Hoje a Anacã tem pecuária na área aberta e 12 ha arrendados a uma usina de energia solar, com aluguel mensal. O turismo ocupa as áreas de vegetação nativa: a reserva legal, os corredores ecológicos que ligam fragmentos antes isolados e uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), criada em 2024.
“A gente iniciou em 2014 e, em 2024, criou a RPPN. Ela foi criada porque o turismo dava esse subsídio”, destacou Fernão. “Já teve anos, muito por conta da baixa da arroba, em que o turismo foi mais produtivo”, acrescentou.
A fazenda vende hospedagem com pensão completa, passeios com guia e produtos em uma loja própria, atendendo a grupos de observadores de, no máximo, 15 pessoas. A estratégia também garante ao imóvel uma valorização que, segundo Prado, a pecuária sozinha não traria.
“Tem uma coisa que a pecuária nunca vai entregar, que é a valorização da área. O turismo cria uma imagem de desejo das pessoas estarem naquele local”, avaliou.
Rota combina pesquisa e formação de guias
Para integrar a rota, a propriedade precisa ter pesquisa científica em andamento, guias orientados e seguir boas práticas de observação de vida silvestre, como não alimentar os animais. Segundo Gerhardt, todos os passeios estão associados a programas de monitoramento dos primatas.

Crédito: Instituto Ecótono
Em outra frente, o Instituto Ecótono e a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) orientam os empreendimentos sobre gestão de visitantes e formam guias locais, que acompanham os pesquisadores em campo. O Sebrae Mato Grosso, pelo Programa Agentes de Roteiros Turísticos, apoia a formatação do produto turístico.
“A Proteção Animal Mundial é uma entre várias organizações que apoiam essa iniciativa por acreditar que o turismo responsável pode ser uma solução sustentável tanto para a proteção das espécies e seus habitats como para fonte de renda para as comunidades”, concluiu.
Saiba mais
O que é a Rota dos Primatas? É um roteiro de turismo de observação de primatas que reúne sete pousadas, sítios, fazendas e áreas públicas em São José do Rio Claro, Sinop, Cláudia e Alta Floresta, no norte de Mato Grosso. Implementada desde 2023 pelo Instituto Ecótono, com a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e o ICMBio, a rota integra o Plano de Ação Nacional para a Conservação dos Primatas Amazônicos e vincula todos os passeios a programas de pesquisa e monitoramento das espécies.
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