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Bioinsumos podem atingir 50% do mercado até 2050

Bioinsumos podem atingir 50% do mercado até 2050Brasil já está definindo bases regulatórias do segmento. Foto: Apex Brasil

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O agronegócio brasileiro vive uma virada de chave tecnológica que promete redesenhar as lavouras nas próximas décadas. Durante o BioSummit, em Campinas (SP), que este ano tem como tema “Bioinsumos e agricultura regenerativa: cultivando o futuro sustentável”, a Embrapa Meio Ambiente lançou uma projeção audaciosa: o controle biológico deve atingir 50% do mercado de proteção de cultivos até 2050.

O movimento não é apenas uma tendência, mas uma realidade econômica — em 2025, o setor cresceu 12%, superando largamente a média de crescimento dos pesticidas químicos.

Mas para que essa mudança saia dos laboratórios e chegue com segurança ao pulverizador do produtor, o setor está blindando suas regras. Simultaneamente, a ANPII Bio (Associação Nacional de Promoção e Inovação da Indústria de Biológicos) e o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) realizaram uma reunião técnica em Brasília, no final de abril, para definir as diretrizes de inovação e segurança jurídica.

O Brasil já é o terceiro maior mercado do mundo no segmento, movimentando R$ 7 bilhões na última safra, e concentra quase 20% da demanda global.

O pesquisador da Embrapa, Wagner Bettiol, afirma que hoje praticamente todos os grandes produtores brasileiros já usam controle biológico em suas propriedades, e que em dez anos o mesmo poderá ocorrer com médios e pequenos produtores, se forem dadas as condições ideais para isso.

“Para atingir essa totalidade precisamos, em primeiro lugar, transmitir o conhecimento para o agricultor, que ainda não tem acesso às informações sobre o controle biológico. Precisamos ampliar a ciência técnica e os treinamentos e propagar esse conhecimento. Já estão surgindo empresas de tecnologia que trabalham com nichos de mercado menores e levam esse conhecimento para pequenos produtores”, pontua.

Ciência contra a crise climática

O uso de biológicos reduz a necessidade de fertilizantes e defensivos importados de zonas de conflito, como o que acontece neste momento no Oriente Médio.

Além disso, produtos cultivados com bioinsumos possuem maior valor agregado e aceitação em mercados rigorosos, como o europeu e o chinês. No longo prazo, a melhor saúde do solo se traduz em uma rentabilidade mais resiliente e sustentável.

Bettiol destaca que a troca do químico pelo biológico é um trunfo contra o aquecimento global.

Segundo ele, para produzir um quilo de pesticida, emite-se pelo menos cinco vezes mais dióxido de carbono do que para a mesma quantidade de biológico. Além da baixa emissão, os bioinsumos melhoram a saúde do solo e a fisiologia da planta, permitindo que ela produza mais com menos estresse hídrico e térmico, retendo mais carbono na terra.

Marco regulatório

O rápido crescimento da indústria nacional — que viu o número de empresas saltar 50% entre 2022 e 2025 — exige um marco regulatório robusto. Em Brasília, especialistas da Anvisa, Ibama, Inmetro e universidades de elite discutiram temas de fronteira, como a edição gênica e o uso de consórcios microbianos.

Para Julia Emanuela de Souza, diretora de relações institucionais da ANPII Bio, o objetivo é garantir que as diretrizes técnicas acompanhem a inovação que o setor já alcançou.

A meta é desburocratizar o acesso a novas tecnologias, garantindo que o médio e o pequeno produtor também possam adotar o controle biológico nos próximos dez anos, seguindo os passos dos grandes grupos que já utilizam a técnica em larga escala.

Cana-de-açúcar na liderança

O setor sucroenergético tem sido o laboratório real dessa transição. Somente em 2025, o uso de biológicos na cultura da cana cresceu 39% em relação ao ano anterior, movimentando R$ 716 milhões.

O sucesso no setor é visto como o modelo a ser replicado para outras grandes culturas, como soja e milho, consolidando o Brasil como o porto seguro da bioeconomia mundial.